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Conitnuação capítulo 8. [ eu tardo mas não falho ] [25 Mar 2006|07:56pm]
[ mood | working ]
[ music | The Cure - boys don't cry ]

No dia seguinte, saio da casa do Fernando as seis horas da manhã, com a intenção de tomar uma ducha rápida na minha casa e ir para o trabalho. Estou vestida com uma camiseta que o Nando me emprestou, cantarolando enquanto abro o carro, com um sorriso bobo no rosto. O dia que passamos juntos foi perfeito. Comemos sorvete e bebemos champanhe sem parar e transamos ainda mais. Essa é a primeira vez em vinte quatro horas que me visto. Tomamos inúmeras duchas e rimos muito. Porque não transei antes com ele?! Porque a senhorita tem um namorado. Tinha Voz Interior, tinha. O Roberto não me ligou desde nossa discussão, e quer saber? Ele que se exploda.

Entro em casa fazendo o mínimo de barulho possível, mas a Tatiana está acordada, fazendo café, enrolada em uma toalha.
- Oi Jú, estava na casa do Roberto até hoje?
- Não, estava com o Fernando.
- Ah é? Fazendo o que a essa hora?

Estou a ponto de abrir a boca, contar todos os detalhes sórdidos da minha maratona sexual e me lembro: a Tatiana levou um pé na bunda do Fernando. A Tatiana gosta do Fernando. Eu transei com o homem de quem a Tatiana gosta. Parabéns Juliana, meus parabéns.

- Bem... ãh... Eu dormi na casa dele. – não estou mentindo, estou?
- Porque? – a Tatiana pergunta, franzindo a testa. Ela olha para a camiseta e um olhar de compreensão passa pelo rosto dela. Olhar, que é rapidamente substituído por um de decepção, e, depois, de raiva. – Você transou com o Fernando?!
- Não! Claro que não! – está bem, isso foi uma mentira. É, foi mesmo.
- Não acredito que você faria isso comigo Juliana. Você sabe muito bem o que eu sinto pelo Fernando.
- Tati, me escuta. Aconteceu. A gente bebeu, eu estava chorando e simplesmente aconteceu. Ninguém agiu com a intenção de te magoar. – bêbados e drogados. Cala a boca Voz Interior, que mania de sempre querer piorar a situação! – Sem falar que, você o Fernando só tiveram um casinho Tati. Que diferença faz? – pego a cafeteira e uma xícara, não vou deixar essa discussão me abalar. Vou tomar meu café e ir para o trabalho.
- Eu não esperaria que você entendesse, afinal, sexo tem o mesmo valor para você que uma camisinha usada. – a voz da Tatiana parece carregada de arsênico.
- Que comparação ridícula. – respondo, depois de uma pausa. – Afinal, uma camisinha usada tem muito valor para mim, significa que transei! – tento brincar, na esperança que ela caia na gargalhada, porem o rosto dela fica ainda mais tenso. Ops.
- Você tem problemas Juliana. Não considera os sentimentos de ninguém, usa os homens para se sentir bem, ou para fazer com que outros se sintam mal.

Ela sai da cozinha, me deixando boquiaberta, uma mão segurando uma xícara vazia.

Chego no escritório meia hora atrasada, sem maquiagem, cabelo sujo e em plena crise de abstinência de cafeína. Durante o trajeto não consegui tirar as palavras da Tatiana da minha cabeça, e a cada vez que repasso nossa discussão, fico com mais raiva. Vou até a máquina de espresso, alcanço um pires e uma xícara.

Quem essa sonsa acha que é? Que culpa tenho eu de não ser uma frígida, sem sal, sem peito e sem namorado? Nesse último item vocês são muito parecidas, Juliana. Você também está sem namorado. Porque eu quero Voz Interior! Essa é uma das diferenças entre a Tatiana e eu que ela não suporta. E quem quer namorar com você...? Muita gente Voz Interior, muita gente! E se aquela “zinha” acha que vai conseguir me convencer de que não deveria ter transado com o Fernando ela está redonda, completa e totalmente enganada. Sinto alguém cutucando meu ombro, é a Gisele.

- Patrícia, porque você batendo o pires na bancada da pia?
- Ãh? – percebo que devo ter passado uns dois minutos batucando um pedaço de louça – desculpa, estou um pouco nervosa hoje.
- Muito trabalho?
- É.

Você tem de se controlar Juliana. Sem falar que, se tem tanta certeza que não fez nada de errado, não tem motivos para estar nervosa, certo? Eu não estou nervosa porque acho que ela está certa e sim porque ela foi de uma petulância excepcional! Petulância excepcional? Eu dispenso esse tom incrédulo e sarcástico, Voz Interior. Caso não tenha percebido, tenho de trabalhar. E, ao contrário da Tati, o meu trabalho não se resume a contar caixas de azeitonas.

No final do dia estou enjoada, com sono e mal consigo manter os olhos abertos. A única coisa que quero fazer é tomar banho e me jogar na cama. Mal tenho energia para registrar a cara de reprovação e mágoa da Tatiana quando passo por ela antes de entrar no banheiro. Dentro do boxe tenho o típico-momento-clichê e encosto a cabeça nos azulejos me perguntando no que eu estava pensando. Transar com o Fernando, depois de tantos anos de amizade e logo depois dele ter dado o maior pé na bunda na Tatiana? Aonde eu estava com a cabeça? Você quer mesmo que eu responda? Não. Não quero.

Eu suponho que se for sincera, existe um fundo de verdade no que ela falou; eu uso os homens para me sentir bem mas isso não é o que está me incomodando. A Tatiana colocou o dedo em outra ferida: eu não me importo com os sentimentos dos outros. Desde que essa confusão inteira começou, no Almoço Fatídico, eu só penso no que eu sinto, no que eu quero e no que eu vou fazer da minha. Esse é o problema com a sociedade do novo milênio; auto-estima foi alçada a níveis estratosféricos e ser egoísta é aceito por todos. Existe uma diferença entre se amar e passar por cima dos outros, e não sei quando ultrapassei essa linha, só sei que ultrapassei e sapateei em cima dela. Eu diria que você ultrapassou a linha quando transou com o Paulo sabendo que ele tem uma noiva, o sapateado foi iniciado quando você ficou com ciúmes da Tatiana e do Fernando. Na minha humilde opinião, isso é. Você nunca dorme não, Voz Interior?

Várias semanas se passam e minhas ficadas com o Fernando se tornam mais freqüentes e naturais. Posso não sentir o frio na barriga que sentia quando comecei meu relacionamento com o Roberto (que por sinal, não me procurou depois daquela cena horrível na casa dele), ou os calafrios quando nos beijávamos, mas o sexo é excelente e a conversa tranqüila. Deve ser exatamente disso que estou precisando; algo calmo e contido.

Não que eu contenha meus gritos quando transo com o Fernando. Aliás, o outro dia o vizinho de baixo abriu a janela e gritou “está mandando bem hein colega?!” em uma noite em que fui particularmente escandalosa. Me pergunto secretamente o que o tal vizinho achou dos meus gritos. Excitantes? Falsos? Exagerados?

O clima entre a Tatiana e eu, não melhorou, mas ao menos não piorou. O que é uma melhoria dadas as circunstâncias. Apesar do que minha Voz Interior e a Tatiana pensam, eu me sinto culpada por como as coisas aconteceram. Eu fui insensível e egoísta. Contudo, saber disso não me leva a pedir desculpas para minha amiga, continuo minha vida como se ela não existisse mais, o que pode ser um pouco complicado em um apartamento de dois quartos e um único banheiro.

Você tem de aprender a lidar com conflitos, Juliana. Fugir de pessoas que estão magoadas com você não resolve nada. Ignorar seus problemas não vai fazer com que eles sumam. Eu lido com meus problemas! Não estou admitindo que agi errado?! Eu hein, Voz Interior, as vezes não sei o que você espera de mim. Eu espero que você peça desculpas.

Não respondo nada, nem saberia como convencer minha consciência de que perdão é superestimado. Por isso, ligo para o Fernando e marco um encontro em um restaurante em vinte minutos. Ao menos, ele não me odeia.
Juliana, como você é infantil e imatura. Eu sei. Controlo uma imensa vontade de chorar e gritar, pego uma camisinha na minha gaveta e saio.

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Capítulo 8 [24 Nov 2005|08:36pm]
[ mood | hungry ]
[ music | Kings of convenience - love is no big truth ]

- Jú, você tem de se acalmar. Nada está finalizado com o Roberto ainda, vocês apenas discutiram.
- Não, Nando. Dessa vez foi diferente. – respondo, olhando para minha taça de champanhe.
- Porque?
- É complicado explicar, mas senti alguma coisa estalando dentro de mim. Não, não. Estalando não. Quebrando.
- Acho que você está sentindo a champanhe dentro de você. – ele responde, sorrindo.

Tenho de admitir que estou um pouco bêbada. Um pouco? Está bem, muito. Mas o alcól não está prejudicando meu discernimento, muito pelo contrário.

- O champanhe, e fique você sabendo, senhor Fernando, que esse champanhe não altera em nada os fatos. Eu não amo mais o Roberto.
- Então porque você não pára de chorar desde que chegou?
- Simples meu caro amigo. – digo, animada. Sempre tive uma teoria sobre final de relacionamentos e o motivo real pelo qual as pessoas choram, e, agora, posso revelá-la! – Não estou chorando por medo de nunca mais ficar com o Roberto, e sim pelo simples fato que acabou. O fim nunca é fácil, mesmo que desejado, previsto ou o caramba. Terminar algo é recomeçar. Mas não sabemos para onde esse recomeço vai nos levar, choramos por angústia do que está por vir, pela incerteza, pelo luto natural de um ciclo que se fecha. – Desenho um círculo no ar com minha taça. – Ops. Acho que derramei o restinho do meu champanhe.
- E eu acho que vou pegar um pano para limpar isso.

O fim de um ciclo; a isso se resume a cena na cozinha do Roberto, constato ao me jogar no sofá. Passo a mão pelos meus cabelos, olhando para o teto. O final de uma vida de boates, transas matinais, celulares ligados durante a noite, mensagens misteriosas em horários impróprios, bilhetinhos pela casa. A morte dos resquícios da minha forma adolescente de amar. O ato final de uma encenação longa e... Por tudo que é mais sagrado Juliana, cala a boca.

- Sabe o que mais me incomoda nisso tudo? – pergunto, sem esperar uma resposta. – Tinha certeza que tudo isso aconteceria, no momento em que aceitei voltar a namorar com aquele Bastardo de Marca Maior. No entanto, ignorei meus instintos, meu sexto sentido feminino e embarquei nessa roubada. Muita mágoa seria economizada se tivesse admitido para mim mesma que jamais ele mudaria. Esse é o maior erro de todos os casais do mundo: achar que sua cara metade mudará, que tudo se resolverá. Na vida real, nada se resolve, ninguém muda e o inteligente a se fazer é fugir na primeira vez que alguém usar a frase “vamos tentar resolver os problemas juntos”. – Olho para o lado e vejo o Fernando sentado na cadeira, rindo loucamente. Indignada com essa leviandade, pergunto – Do que você tanto ri?
- De você! “roubada”? “sexto sentido feminino”?
- Você é profundo como uma colher de sobremesa Fernando. – digo, com frieza. – Estou falando sério!
- Eu também estou Jú, e você não me engana, te conheço muito bem. O que realmente está te fazendo chorar não é o “final de um ciclo”, - reparo, irritada, que ele falou isso virando os olhos para cima – e sim porque bem ou mal, você está triste. Triste porque acreditou que tudo daria certo entre você e o Roberto. Você ainda ama ele e fico um mês sem sexo se você me contradisser.

Ele fala isso com muita gentileza, sem agressividade e sinto as lágrimas voltando. Meus olhos ardem, minha garganta dói e meus lábios tremem. Ele está certo, eu sei. Cada vez que aquele Bastardo de Marca Maior falou “eu te amo”, me beijou, me abraçou, acreditei que era especial para ele, e, agora, percebo que estava me iludindo. Não sou especial para o Roberto, e deixei de ser há muito tempo. Nenhum homem com quem tenho relações me considera uma mulher extraordinária.
E desde quando o que os homens pensam de você te define senhorita Juliana? Não estamos mais nos anos cinqüenta, para sua informação. O ano é 2005, você já deveria ter aprendido que a aprovação, ou desaprovação, de um homem não deveria influenciar como você se vê. Você é uma mulher inteligente, bonita, esperta, culta, sensual, independente, resolvida, determinada, e, no momento, muito bêbada. Ah, Voz Interior, tudo isso é muito meigo, mas na prática, não serve para muita coisa.
Pressiono a palma das minhas mãos contra meus olhos, tentando organizar meus pensamentos. Racionalmente falando, o Fernando tem razão; nada foi decidido entre o Roberto e eu, apenas discutimos, ninguém falou em terminar. Porém, não deixo de sentir que a próxima vez que conversarmos será a última, pelo menos como namorado e namorada.
Sem saber como responder, me contento com a primeira coisa que me atravessa a cabeça.

- Ainda o ama. Não “ama ele”. – completo, ao ver a cara de confusão do Fernando.
- Eu acho que você precisa de algo um pouco mais forte do que alcól. – ele diz com firmeza, levantando-se do sofá. – Espera dois segundos.
- Aonde você vai? – tento levantar-me para ir atrás dele mas a sala roda, resolvo ficar sentadinha.
- Você precisa de algumas risadas. – o Fernando declara, balançando um saquinho de plástico na minha frente.
- Fernando! Isso não é maconha, é?
- Claro que não. Você acha que eu fumo maconha? Isso me insulta Juliana. – ele responde com seriedade. – São cogumelos.

Sei que deveria ficar chocada e lecioná-lo sobre o estrago que substâncias alucinógenas causam no organismo, no entanto, lembro que estou totalmente bêbada e fico calada. Afinal, poucas coisas são tão irritantes quanto uma bêbada hipócrita. Contento-me em lançar um olhar cético para o saco que está nas mãos do meu amigo.
Mas... Por outro lado... Cogumelos vêm da terra não? Quer dizer, ele não está me oferecendo cocaína ou crack. Algo natural não pode fazer mal. Além do que, eu adoro shitake! Praticamente a mesma coisa.
Põe “praticamente” nisso hein... Voz Interior, os tempos são outros e hoje em dia nada mais comum do que se entorpecer com produtos naturebas. Veja os freqüentadores de festas “trance”! Todos dançando, descarregando suas emoções ao som de batidas sintéticas e abastecidos de cogumelos e afins. “Afins” sendo LSD, ecstasy e anfetaminas? Claro que não! “Afins” sendo maconha; haxixe no máximo! Apenas plantas, nada de processos químicos. Pense em chá verde, alface, tofu!

- Fernando, se você acha que vou tomar chá de cogumelos, está redondamente enganado. – desenho vários círculos com meu indicador.
- Ninguém falou em chá. Vou fazer uma omelete mágica para nós.

Ele vai até a cozinha e me deixa só. Está vendo Voz Interior? Isso prova que é inofensivo: dá até para misturar com comida! Alguma vez já ouviu falar de omelete ou biscoito de heroína? Exato.


Não lembro como cheguei no quarto do Fernando e porque estou parada em frente ao espelho do armário, porem continuo onde estou. Examino uma imagem refletida e levo alguns segundos (minutos? Horas? Não sei.) para perceber que sou eu. Aliso meu corpo com minhas mãos, atônita com a maciez da minha pele. Como sou macia! E meus cabelos! Longos, sedosos, brilhosos! Não sei como nunca reparei antes, eles são como pequenos fios de seda loiros. Sou inteiramente feita de seda.
Lembro da cara de raiva do Roberto e ao invés de tristeza, sinto indiferença e ressentimento. Quem esse Bastardo acha que é? E desde quando preciso dele? Vivi muito bem sem ele durante anos, porque haveria de ser diferente? Minha Voz Interior tem razão: não preciso da aprovação de nenhum homem.
“Afinal, olhe para mim!”. Alguém já viu uma boca tão sensual, tão carnuda, tão perfeita? Tenho certeza que não. E minhas mãos? Mãos de fada; multifuncionais, capazes de cozinhar, escrever, desenhar, masturbar um homem como poucas, carregar peso. Minhas mãos valem ouro! Ou seda? O que será que vale mais no mercado? Dane-se.
Sou feita de seda dourada.

Ao longe ouço uma batida musical que não distingo muito bem, parece Fifty Cent, mas também poderia ser Mozart. E qual a importância? As notas fluem pela minha corrente sanguínea, passam pelo meu coração e me enchem de esperança. Não posso acreditar que há algum tempo atrás estava chorando.
Estou dançando no quarto com o Fernando, meu quadril no dele e sinto uma protuberância. Claro que ele está de pau duro, ele está dançando com a Mulher de Seda Dourada! Pobrezinho, mal deve estar conseguindo se controlar.
Os olhos do Nando são verdes. Verdes como a grama, como a jade, como... como a pele de uma perereca. A pele dele é da cor de um caramelo queimado, os braços dele fortes, a bunda dele...
A língua do Fernando passa na minha, me provocando, as mãos dele percorrem meu corpo e param nos meus seios, minha mão já está segurando o pau dele. Ouço meus gemidos e os dele e quero o corpo dele inteiro. O quero dentro de mim, emcima de mim, do meu lado, por toda parte.

Estamos na cama, estou emcima dele, totalmente nua, as luzes estão apagadas, menos uma lâmpada vermelha que fica na cabeceira da cama. A luz transforma as feições dele, ele parece mais velho, mais másculo, mais rude, mais homem. Ele se levanta e me encosta na parede, ergue minha perna na altura do quadril. Pego impulso e enlaço o corpo dele com minhas duas pernas, os braços dele me seguram com muita força, meus braços apertam os ombros largos dele. O céu está ficando mais claro, o sol está nascendo e continuamos gemendo, nos agarrando um ao outro. Depois dos primeiro pássaros cantarem, gozamos.


“Onde diabos fui parar?!” é o primeiro pensamento que tenho. “Vou vomitar” é o segundo. Corro até o banheiro sem raciocinar e me debruço sobre a privada. Odeio vômito; o cheiro, o aspecto, o gosto, o barulho e o ciclo vicioso que ele causa: pessoa vomita, olha para a privada e vomita novamente. Odeio mais ainda quando eu estou vomitando, porque quando outra pessoa está “devolvendo o almoço” eu sempre formulo algum comentário sarcástico. Atitude nada simpática essa. Ora Voz Interior! Após tantos anos de convivência, você ainda tem a ilusão de que eu seja uma boa pessoa?
Sem falar que poucas coisas são tão humilhantes e nojentas quanto vomitar. Não estou condenando a pobreza ou o status social de alguém. Aponte UMA única pessoa que não se incomode com vômito. Vômito. Até a palavra é repulsiva.
No momento você não está sendo muito elegante Juliana. Claro que não! Estou v-o-m-i-t-a-n-d-o! Sucos gástricos e restos de comida estão saindo pela minha boca! Urgh. Acho que vou vomitar de novo. Restos de comida e de alcól e cogumelos alucinógenos. Sem falar que você está pelada, seu cabelo gorduroso e uma espinha apareceu no meio do seu queixo. Ora Voz Interior, não me amole.
Faço quatro gargarejos seguidos com listerine puro e ainda sinto um gosto ácido na boca. Passo água fria no rosto e me olho no espelho pela primeira vez desde ontem. Não posso acreditar que essa pessoa é a Mulher de Seda Dourada de ontem. Olheiras fundas e escuras me dão a aparência de uma viciada em heroína em plena crise de abstinência, a espinha no meu queixo está vermelha e lustrosa, meu cabelo colado na cabeça e meu rosto totalmente pálido.
Puta-que-pariu-merda-cacete-bosta. Não satisfeita em transar com meu melhor amigo, o fiz com dor de cotovelo, bêbada e drogada. Imediatamente uma outra preocupação surge: isso é uma traição? Não. Não é. Não pode ser. Raciocina Juliana. O Roberto e eu terminamos ou não afinal? Nada foi dito nesse sentido, mas não falam por aí que para bom entendedor meia palavra basta? Puta-que-pariu-merda-cacete-bosta. Certo, “não adianta chorar sobre o sexo consumado” ou o que quer seja que falam pelas ruas. Quais minhas opções?

a) Não contar ao Roberto, pedir desculpas e apostar todas minhas fichas nesse namoro;
b) Não contar nada ao Roberto, terminar tudo com ele e seguir meu rumo.
c) Não contar nada ao Roberto, terminar tudo e me internar em uma clínica para dependentes químicos;
Eu sugiro a opção D: não contar nada ao Roberto, terminar tudo, se internar em uma clinica para dependentes químicos e depois se converter ao islamismo e morar no Iêmen. Quando a senhorita vai aprender que bebida e sexo casual não resolvem os problemas de ninguém? Está mais do que na hora de encarar seus problemas como uma adulta e não como uma adolescente desequilibrada. Olha aqui Voz Interior, eu sei que fiz uma cagada mas isso não te dá o direito de ser grosseira desse jeito.

Tomo banho e volto para o quarto, procuro minhas roupas como uma espiã da CIA no Kremlin. As cortinas (tipo “black out”) estão fechadas e não enxergo direito. Consigo distinguir o corpo do Fernando deitado na cama, a barriga (malhada e gostosa) para cima, um braço sobre os olhos. Fico de quatro e procuro sob a cama pelo meu sutiã e bato minha cabeça com força quando ouço a voz do Fernando.

- Estou emcima da cama Jú, não embaixo. – ele está totalmente rouco e de ressaca mas registro o tom malicioso dele. – O que você quer aí?
- Minhas roupas.
- Para que?
- Eu não posso sair pelas ruas nua Fernando! – digo, controlando uma risada.
- Pois acho que seria uma ótima idéia. Aliás, todas as mulheres deveriam andar pelas ruas sem roupa. Todas, exceto minha mãe, é claro. – ele puxa meu braço com firmeza e carinho – Vem logo para cá.

Deito ao lado dele, me deixo ser abraçada e fico surpresa: isso não é estranho, muito pelo contrário. Porque não transamos antes? Esses anos todos de amizade e nada, nem mesmo um beijinho. Não nego que já pensei no assunto diversas vezes, porem sempre descartava a hipótese por medo de estragar a amizade. O irônico é que a nossa amizade é o que está impedindo que esse momento seja estragado. Não preciso me perguntar se ele quer que eu vá embora, se ele gostou, se posso beijá-lo nem outra neurose do tipo. Sei muito bem que posso ficar nessa cama com ele o tempo que quiser, que não preciso cobri-lo de beijos e que ele gostou.

- Que loucura hein? – ele me dá um beijo no pescoço – Sabia que aqueles cogumelos te fariam bem, Mulher de Seda Dourada.

Rimos juntos e repassamos todos os momentos que conseguimos lembrar da noite, rindo cada vez mais. Ligo para a Lurdes (vulga Vaca Psicótica) e aviso que não poderei trabalhar, o Fernando faz o mesmo. Nosso café da manhã é sorvete de flocos com champanhe, intercalado com alguns amassos.

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Continuação capítulo 7, foi mal a demora! [21 Nov 2005|11:36pm]
[ mood | bouncy ]
[ music | Juanes - Mala Gente ]

Sento na minha escrivaninha e leio vários relatórios que trouxe para casa, esperando inconscientemente o Roberto me ligar. Três semanas se passaram desde da minha Confissão Bombástica e toda vez que sinto algum arrependimento pelo que fiz, enfio minha cabeça em relatórios tediosos sobre o abuso dos direitos humanos. Meu celular toca e sinto um nervosismo, fico com medo de algo que não sei o que é. Olho para o visor do telefone, é o Fernando. Meu nervosismo aumenta e decido por não atender. Afinal, tenho que me concentrar no meu trabalho, o Fernando não pode esperar que eu esteja sempre à disposição dele. Não tenho tempo para jogar conversa fora, ainda mais se essa conversa envolver as trepadas dele com a Tatiana. Não que isso me incomode, no entanto, a imagem mental da Tatiana nua, com as pernas contorcidas por trás da cabeça não me atrai.

O telefone pára de tocar e volto minha atenção para o relatório, leio a mesma frase quatro vezes antes de desistir. Não acredito que eles ficaram, quem dirá que eles transaram. Quanto mais penso sobre o assunto (e tenho pensado nisso com uma freqüência suspeita), mais a situação me parece estapafúrdia. O Fernando é o tipo de homem que transa com uma mulher diferente por dia e faz loucuras na cama com todas elas. E a Tatiana... Bem, a Tatiana precisou de um ano para criar coragem e chupar o ex-namorado dela.
O meu celular toca novamente, é o Fernando. Decido atender e meu nervosismo é substituído por raiva quando ouço a voz dele.

- Oi Jú!
- Oi. – respondo com frieza. – Você está precisando de alguma coisa Fernando?
- E desde quando eu tenho que precisar de alguma coisa para te ligar? – ele pergunta, surpreso.
Desde que você comeu minha amiga porque não tinha ninguém com quem sair em um sábado à noite, penso antes de responder.

- Ora, não tenho notícias suas desde domingo. – digo, me sentindo ridícula.
Desde quando ele tem satisfações a te dar Juliana?
- Foi mal, estava atolado de trabalho.
- Ah, claro.
- Jú, que bicho te mordeu? – ele pergunta, irritado.
- Nada Fernando, estou trabalhando. – respondo, sem paciência. Que bicho me mordeu? Idiota. Insensível. - O que você quer?
- Ia te chamar para ir ao cinema, mas já que você está ocupada, esquece.
- Certo. – digo e faço uma pausa, tentando me controlar para não falar o que me passou pela cabeça, mas falho. – Porque você não chama a Tatiana?
- Porque eu chamaria a Tatiana? – ele pergunta e ri. – Já entendi... Juliana, você está com ciúmes?
- Ciúmes? Eu? – pergunto, torcendo para que minha voz soe o mais indiferente possível. – Fernando, se eu ficasse com ciúmes de cada mulher que você come, enlouqueceria. Ainda por cima, não sou sua namorada, nem sua ficante, não tenho motivos para sentir ciúmes. Nem uma mísera ponta sequer.
- Ainda bem que você esclareceu isso tudo, que você nem sente nem uma mísera ponta de ciúmes. – ele fala rindo cada vez mais. - Vou parar de te incomodar, depois conversamos.

Desligo o telefone na cara dele e bufo de raiva. Não consigo ficar parada dentro do meu quarto. Tiro meu roupão, visto uma calça, um casaco preto, pego minha bolsa e um livro do Zola e saio de casa. Ando sem rumo, olhando as vitrines escuras das lojas e sento em um café. Peço um capuccino e um croissant, estou quase me acalmando quando um casal de adolescentes senta ao meu lado e iniciam uma sessão de trocas de carinho e saliva em público característica de adolescentes cheios de hormônios, e sem nenhum cômodo seguro para extravasá-los. Tento ignorá-los concentrando toda minha atenção no anti-herói criado pelo Émile Zola, mas não consigo bloquear os barulhos de beijo e juras de amor.
Olho para o meu relógio; são oito e meia da noite, essas crianças não têm pais responsáveis? O que eles estão fazendo na rua a essa hora? Quando eu tinha quinze anos não podia sair de casa durante a semana, ainda mais para dar uns amassos em público, violando todas as leis de atentado ao pudor.
Bebo o resto do capuccino de uma vez, deixo dinheiro na mesa e vou embora, comendo meu croissant enquanto ando. Você não está sendo levemente dramática Juliana? Eles não estavam fazendo nada de errado. Isso é uma questão de ponto de vista, Voz Interior. Ruídos de salivação, deglutinação não compõem uma trilha sonora agradável para comer, na minha opinião pelo menos. Se eles querem se agarrar, que peçam para os pais os levarem para um motel ou esperem ter idade o suficiente para entrar em um desacompanhados. Qualquer coisa, desde que eles não se atraquem na mesa ao lado da minha.
Isso não tem nada a ver com o barulho que eles estavam fazendo Juliana. O que realmente está te incomodando? Nada. Absolutamente nada. O que poderia estar me incomodando? Eu traí meu namorado, meu namorado me traiu, meu melhor amigo transou com minha amiga e nunca tentou nada comigo, sou praticamente a amante de um homem que está noivo. O Roberto não troca juras de amor comigo, nem tenta encostar a língua dele nas minhas amídalas em púbico. Ah... Então é isso... Você acha que o Roberto está sendo frio com você e está se sentindo rejeitada porque o Fernando preferiu transar com a Tatiana. Ao meu ver, você está com o ego ferido.

Não tento me enganar e simplesmente admito que minha Voz Interior tem razão. Estou com a impressão que a palavra “FEIA” está estampada na minha testa e que todos os homens podem vê-la. Afinal, se eu fosse bonita e irresistível, o Roberto não teria beijado a Girafa Anoréxica, o Fernando teria me comido e não a Tatiana, e o Paulo teria largado a Sereia Turbinada para ficar comigo.
Ligo para o Roberto, querendo ouvir palavras doces, elogios, me sentir segura. Quero ter certeza de que vai ficar tudo bem, que podemos superar tudo que aconteceu.

- Oi Amor. – ele fala, ao atender o telefone. – Acabei de sair de casa, ia te ligar nesse minuto.
- Sério? Que bom. Você quer me ver hoje? – pergunto, me sentindo a Mulher Mais Carente do Planeta.
- Pode ser. Mas já vou te avisando que estou exausto, tive um dia longo.
- Então você não quer me ver?
- Ai Juliana, eu falei isso? – ele retruca, nervoso. – Só não espere que eu te encha de beijos e carinho. Não estou com cabeça para isso.
- Certo.

Depois de desligar o telefone não sei muito bem o que ficou acertado entre nós. Ele quer que eu vá para a casa dele ou não? Ele quer que eu vá, mas não quer ficar comigo? Ele não quer que eu vá e lançou uma indireta a respeito? Ele quer que eu vá, mas não vamos transar? Você está sendo um tanto quanto insana Juliana. Não vai para a casa dele.
Sei que não deveria ir para a casa dele, visto que ele foi grosso e deixou transparecer que quer ficar sozinho, mas levo em consideração que ele disse que quer me ver. Vou para a casa, me troco, pego as chaves do carro e vou até a quadra dele.
Ao chegar na casa dele, nos cumprimentamos com um rápido beijo na boca, ele passa a noite assistindo televisão e eu, lendo. Dormimos abraçados e na manhã transamos. Tudo está normal, pelo menos na superfície. Nos falamos ao telefone, dormimos juntos, transamos, saímos juntos. Mas algo está faltando, nosso namoro está oco: a casca está do jeito que deveria, mas por dentro não tem nada. O Roberto está sem paciência, discutimos por besteiras e o clima de lua-de-mel que estávamos curtindo definitivamente morreu. Não me sinto à vontade ao lado dele, conto cada vez menos detalhes do meu dia para ele e vice versa. No entanto, nenhum dos dois fala nada sobre isso. Fazemos de conta que está tudo bem. Muitas vezes acho que estou exagerando, que deveria dar tempo ao tempo, tento me convencer de que se o Roberto não fala nada a respeito, é porque para ele nada está acontecendo. Porem quando estou quase certa sobre tudo isso, nós brigamos sobre a tonalidade de azul de uma parede e percebo que há algo de muito errado entre nós dois.

No dia seguinte, ao sair do trabalho decido passar em uma banca de revista para comprar a nova VOGUE. Nada como a nova coleção primavera-verão para me distrair de todos os meus problemas. Entro na fila do caixa, procuro moedas na minha carteira e sinto um dedo cutucando meu ombro. Viro, com um olhar de irritação que logo se transforma em olhar de surpresa. É o Paulo, mais lindo que nunca, de terno azul marinho, gravata levemente frouxa, o primeiro botão da camisa aberto. Ele está carregando uma pasta, obviamente está saindo do escritório, e apesar da aparência cansada, ele está me olhando sorrindo, feliz em me ver.

- Não acredito que de todos os lugares de Brasília, encontro com você por aqui. – ele me fala, beijando o canto da minha boca. Ele olha para a edição da VOGUE na minha mão – Se mantendo atualizada?
- Óbvio, tenho que saber qual o próximo modelito que vai me tornar irresistível. – “modelito” Juliana? Ah, cala a boca.
- Você não precisa de roupa para isso. – ele responde, me devolvendo a revista. – Eu diria, que quanto menos roupa mais irresistível você fica. São valores inversamente proporcionais.
Pagamos pelas nossas revistas e paramos na frente da banca de jornal.

- Eu diria que o tamanho da sua ereção é diretamente proporcional à quantidade de roupa que uso. – respondo.
- Eu diria que você está certa. Que tal a gente ir para minha casa, tomar uns drinques, relaxar, e trabalhar um pouco mais sobre essas equações.
- Boa idéia. – digo, pensando no Roberto, no nosso namoro e me sentindo extremamente exausta. Exausta de me preocupar com o que ele sente, com nós dois. Hoje não quero saber de mais nada. Sem falar que só vou tomar um Martini, isso não significa que vamos trepar.
Não, quê isso. Imagine.

Vamos até a casa dele e nos acomodamos na sala. Reparo a ausência de fotos da Sereia Turbinada e me pergunto se eles terminaram. Não que isso faça alguma diferença, lógico, visto que não só tenho namorado, como não vamos transar, e ainda por cima não tenho mais nenhum interesse pelo Paulo. Foi um caso rápido, coisa passageira. Estou apenas sendo civilizada, adulta, madura. Ahã. Claro.
O Paulo me entrega meu Martini, prepara um uísque com gelo para ele e senta ao meu lado. Conversamos sobre o trabalho durante alguns minutos, e antes que eu possa refletir sobre o que está acontecendo, ele me beija. Não reajo, tiro a gravata dele, ele desabotoa minha blusa e beija meus seios por cima do sutiã. Estou apenas de calcinha e sutiã, deitada no sofá, ele por cima de mim, de cueca, pressionando o pau dele no meu quadril, beijando meu pescoço e minha orelha. Minha Voz Interior grita e bate o pé em protesto, sei que ela está certa. Não existe justificativa para o que estou fazendo, motivo plausível, razão compreensível. Estou simples e basicamente sendo infiel.
Abro meus olhos e empurro gentilmente o Paulo com minhas mãos. Ele me olha com curiosidade. Tomo mais um gole do meu Martini para me acalmar.

- Paulo, desculpa, mas isso não está certo. Eu tenho um namorado. – termino meu drinque e estendo meu copo para ele. Ele se levanta e vai até o bar. – As coisas entre ele e eu podem não estão perfeitas e com certeza uma traição não vai mudar nada.
- Juliana, é só sexo. – ele responde, me entregando minha taça, cheia, com duas azeitonas. – Não é o fim do mundo.
- Pra você talvez não. Essa é a primeira vez que traio alguém e não me orgulho. Porque você trai sua noiva? Ela é linda.
- Sim, ela é mesmo. – ele responde com indiferença, tomando outro gole de uísque. – Mas isso não é tudo.
- Você não a ama? – pergunto.
- A questão não é essa. Eu amo muito a Silvana. Mas isso não quer dizer que não sinta desejo por outras mulheres. Sem falar que não estamos muito bem. Temos todo tipo de problema, brigas. Não suporto mais discutir com ela, não poder transar com ela quando me dá vontade.
- Eu não sei porque estou aqui, nem porque transei com você da última vez. Quer dizer, eu achava que sabia, eu achava que queria fazer com que o Roberto se sentisse mal, mas quando isso aconteceu me arrependi. Não tenho motivo nenhum para estar seminua na sua sala.
- E precisa de outro motivo além de querer trepar?
- Sim. Senão estou sendo uma vaca e apenas isso. Uma vaca egoísta e sem sentimentos. Outra coisa, onde ela está Paulo? Você não mora com sua noiva?
- Morava. Mas ela foi promovida e está trabalhando em São Paulo. Devo me mudar para lá no final do ano, depois do casamento.
- O quê? Você já está de casamento marcado?! – pergunto indignada. Uma coisa é transar com um cara noivo, mas que não tem a menor perspectiva de se casar. Outra totalmente diferente é transar com um cara noivo, com data certa, presentes de casamento chegando pelo correio, convites enviados.
- Claro. Em novembro nos casamos.
- Paulo, acho que está na hora de pararmos de nos ver. – me visto rapidamente, pego minha bolsa e vou até a porta. – Você tem uma noiva, eu tenho um namorado. Deveríamos estar transando com eles, não um com o outro. Deveríamos estar tendo essa conversa com eles e não um com o outro. Não me liga nem me procura mais, por favor.

Fecho a porta, sentindo secretamente um prazer pelo momento culminante de drama que acabei de viver. Só faltou uma música do Frank Sinatra tocando no fundo e poderia ser uma cena de filme!
Não tem a menor graça Juliana. É verdade Voz Interior, você tem razão, desculpe.

Sento no meu carro e penso em ligar para o Roberto. “Deveríamos estar tendo essa conversa com eles e não um com o outro”. Seguindo meu impulso, vou até a casa do Roberto, e pela primeira vez desde a Confissão Bombástica, sinto esperança. Estamos apenas tendo um problema de comunicação, e um dos dois tem de tomar o primeiro passo em direção a solução. Vai ficar tudo bem, tenho certeza.
Toco a campainha e espero ansiosamente o Roberto abrir a porta. Ele me olha, confuso.

- Jú? O que você está fazendo aqui?
- Acho que precisamos conversar, meu amor. Sobre nós dois e esse clima entre nós dois.

Durante alguns segundos fico com medo de ouvir um sonoro “vai embora” e sinto uma apreensão enorme. Para o meu alívio ele me convida para entrar, senta à mesa da cozinha e segura minha mão.

- Você está certa Jú. Temos muito assunto para colocar em dia. – ele fala, me olhando nos olhos. – Você quer começar?
- Quero. – ignoro as borboletas que voam pela minha barriga e respiro fundo antes de começar a falar. – Eu encontrei com o Paulo hoje, depois do trabalho. Foi por acaso, e isso me fez pensar sobre tudo que aconteceu. Eu sinto muito por ter te traído Roberto. Achava que eu tinha o direito, já que você ficou com a Raquel, que você merecia sentir a mesma dor que senti. Eu achava que isso ia nos ajudar, ou pelo menos me ajudar. Mas deu tudo errado. –digo, segurando minhas lágrimas. O Roberto está calado. – Eu te amo, quero ficar com você. Mas para que isso aconteça você tem que me ajudar.
- Você se encontrou com o Paulo?
- O quê? – pergunto, atordoada. Era para ele estar me enchendo de beijos, falando que me ama e pedindo desculpas por ter beijado a Raquel (afinal, foi o ponto de partida de toda essa confusão) e pela maneira como tem me tratado nessas últimas semanas.
- Você se encontrou com o Paulo? – ele repete.
- Foi ao acaso Roberto, eu estava em uma banca de jornal e ele também. Nos falamos durante cinco minutos. – minto. Viu? De que adianta falar que fui para a casa dele e o deixei e agarrar? Não significou nada, me arrependi. O Roberto não precisa saber. – Falei para ele nunca mais me procurar. – digo. Uma verdade para compensar uma mentira.
- Você espera que isso me satisfaça?
- Claro. Afinal, eu tive que me satisfazer com sua promessa de nunca mais procurar a Raquel não tive? Promessa, aliás, que não só você não fez espontaneamente, como ainda por cima quebrou. – respondo, agressiva. Bastardo. – Você não é a pessoa mais bem colocada para dar lições de moral sobre fidelidade.
- Quer dizer que porque eu beijei a Raquel não tenho o direito de achar ruim que você deu para um homem? – ele responde, gritando.
- Não. Quer dizer que você tem que ser mais humilde ao reclamar. Quer dizer que pelo menos fui honesta a respeito. Quer dizer que você deveria valorizar o fato que estou tentando conversar com você para resolvermos nossos problemas. E outra coisa: eu não “dei” para ninguém. Não me confunda com a Raquel. Caramba! Quero virar a página.
- Fácil para você. – ele retruca com frieza e raiva. – Não fui eu quem transou com outra pessoa.
- Não, não foi. – respondo, sentindo minhas lágrimas escorrendo no meu rosto. – Foi você quem ficou dando emcima de uma mulher enquanto namorava comigo, ficou com ela, mentiu a respeito e não cortou relações.
- Juliana, dá um tempo. Até quando você vai jogar isso na minha cara? – ele pergunta, olhando para cima e batendo na mesa.
- Até você admitir que fez merda. – grito.
- Eu já admiti, que merda!

Penso em falar alguma coisa, que nem sei o que é e desisto. Encaro o Roberto, ele me encara, procuro algum sinal de que ainda sinto amor por ele, algo além de carinho, e me assusto ao perceber que não amo mais o Roberto. Tenho a impressão de que mal o conheço e que ele não sabe quem eu sou. Quase dois anos de namoro para o quê? Para acabarmos em uma cozinha, gritando e chorando. Repenso em todos os bons momentos que tivemos, as saídas, os beijos, as conversas, as risadas e elas parecem irrelevantes, quase inexistentes. Como se fossem frutos da minha imaginação. A partir desse momento, o que vivi com o Roberto não importa mais, porque ele não faz mais parte da minha vida.
- Acho melhor eu ir embora. Quando nos acalmarmos, conversamos.

Não espero ele responder e saio pela porta da cozinha. Espero até as portas do elevador fecharem e choro, aos soluços. Não sei se estou chorando porque acabei de assistir à morte do meu namoro e da próxima vez em que me encontrar com o Roberto vamos enterrá-lo com palavras como “não foi você, fui eu”, “vamos tentar ser amigos”, “você foi muito especial” e outras, ou se porque no fundo estou me perguntando se não fui precipitada.

Examino meus olhos vermelhos no retrovisor e aceito, para mim mesma, a verdade: eu não amo mais o Roberto. E já faz algum tempo, porém não queria admitir. Por alguns minutos estou perdida, não sei o que fazer nem para onde ir. Então, num ímpeto, faço a única coisa que me parece lógica: ligo para o Fernando. Quinze minutos depois, estou sentada no tapete chorando no ombro dele.

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Continuação capítulo 6 e começo capítulo 7 [03 Nov 2005|09:54pm]
[ mood | thoughtful ]
[ music | Bon Jovi - have a nice day ]

Esse é o dia mais feliz da minha vida, não tenho dúvidas. Me olho no espelho mais uma vez e estou radiante: meu sorriso é verdadeiro e espontâneo, o arranjo de flores de cristais no meu cabelo é elegante e feminino, meu vestido tomara-que-caia em tons de marfim ressalta o leve bronzeado da minha pele. Estou usando os brincos de pérola que ele me deu anteontem. No meu anular esquerdo um imenso diamante, incrustado em uma armação de platina, brilha. Minha mãe me avisa que está na hora. Ando até a porta da igreja a passos rápidos mas não estou nervosa. Me posiciono na entrada da igreja (percebo que é a catedral de Saint Patrick em Nova Iorque) e vejo no fundo as damas de honra, os padrinhos e Ele. Meu amado noivo. O homem da minha vida. Caminho até o altar lentamente, com confiança. Esse é o meu momento. Chego em frente ao padre e viro meu rosto radiante para o meu futuro marido. Ao invés do Roberto é o Fernando. O padre começa o discurso mas é interrompido pelo alarme antiincêndio da paróquia. O Fernando me coloca no colo e corre em direção à saída, mais preocupado com a minha segurança do que a dele. PI PI PI PI PI... O alarme não pára de tocar.

Acordo e desligo meu despertador. São sete e meia da manhã, esqueci de desprogramar a geringonça. Maldição. Levanto, coloco um robe e vou até a cozinha com a vaga idéia de preparar um chá. Ouço barulhos de pratos sendo batidos e me pergunto o que a Tatiana está fazendo acordada a uma hora dessas. Ela está espremendo laranjas e batendo ovos em uma tigela.

- Bom dia Jú. – ela está com uma camiseta masculina que reconheço como aquela que o Fernando estava usando ontem. Lembro de uma só vez da minha topada com ele a caminho do banheiro, do ciúme que senti, e, principalmente, das dimensões do pênis dele quando ereto. Não é natural. Ele deve usar aquelas máquinas que aumentam o tamanho do pinto. A Tatiana não pode ter sentido prazer. Olha só o tamanho dela! Ela é baixa e magra, um pinto daquele tamanho só pode ter... – Jú? Você está legal?

- Ãh? Sim, estou. – respondo. Alcanço uma maçã e me encosto na bancada branca da pia. – Ãh... Tati... Você transou com o Fernando?
- Sim. E foi ótimo.
- Ele... Ãh... Dormiu com você? Ele ainda está aqui?
- Sim. Estou fazendo café da manhã para nós dois. – ela levanta a frigideira, indicando duas toneladas de ovos sendo fritos. - Você quer?
- Não, obrigada. – dou uma mordida na maçã e procuro algo para falar. Não encontro nada.
- Jú, você ficou chateada por eu ter ficado com o seu amigo?
- Não! Claro que não! – exclamo. – Só não acho que vocês combinam e fui pega de surpresa. Toma cuidado com ele Tati, o Fernando é muito mulherengo. Ele... Ãh... Não é o tipo de homem que comer ovos mexidos na cama. – acrescento.
- Obrigada pelo aviso.
- De nada.

O clima entre nós fica pesado e volto para o meu quarto. Porque você falou isso para ela?? Ora! Para avisá-la! Assim ela não se ilude. E assim ela não investe nele não é? Você está insinuando que quero afastar a Tatiana do Fernando? Para que eu faria isso? Isso é loucura Voz Interior. Você está com ciúmes. Não estou. Está sim. Não estou. Está sim. Não estou e ponto final! A única pessoa de quem sinto ciúmes é o Roberto.
Lembro da discussão que tivemos e me sinto ainda pior. Será que ele ficou na festa? Provável. Será que a Girafa Anoréxica tentou assediá-lo? Muito provável. Isso quer dizer que além de ter discutido com ele, o deixado falando sozinho, ainda fiz tudo isso numa festa repleta de alcól e freqüentada pela minha inimiga. Muito bom Juliana. Está na hora de colocar em prática um plano de controle de danos.
Preparo panquecas de leite condensado que o Roberto adora, tomo banho, arrumo meu cabelo do jeito que ele gosta (ondulado, com um meio rabo e algumas mechas soltas no rosto), me perfumo, escolho uma roupa especial e vou até a casa dele. Estou saindo da sala quando ouço a voz do Fernando. Fico parada, ansiosa, sem saber o que fazer. Uma parte de mim não quer nunca mais vê-lo e a outra está louca para saber o que ele achou da Tatiana. Antes que eu possa tomar uma decisão ele me vê e sorri.

- Você já está de saída Jú?
- Estou. Você? – pergunto casualmente, cruzando os dedos para que a resposta seja afirmativa.
- Também. Me espera, desço com você. – ele dá um beijo rápido na Tatiana e vejo no rosto dela uma expressão comum à de todas as mulheres que ficam com o Fernando. Ansiedade. Ela está percebendo que ele não vai ligar como prometeu e me sinto mal por ela.
- Quer dizer que além de consumir todo meu estoque de bebidas alcoólicas, você vai transar com todas minhas amigas? – pergunto assim que bato a porta. Estou com raiva do Fernando. – Vê lá como você vai tratá-la Fernando. A Tatiana é uma mulher extraordinária.
- Eu sei.
- Como assim você sabe? – isso não estava planejado. Era para ele elaborar desculpas esfarrapadas.
- Gostei dela.
- Gostou dela o suficiente para vê-la todos os dias? – pergunto, apavorada com a possível resposta dele.
- Todos os dias eu não sei. Mas outra noite, com certeza.
- Certo. – digo secamente. Não acredito que ele se interessou pela sonsa da Tatiana.

Nos despedimos e vou até a casa do Roberto, esquecendo por completo o discurso de desculpas que tinha preparado. Só consigo pensar no Fernando transando com a Tatiana, fazendo com ela todas as acrobacias sexuais que ele já fez tantas vezes com outra. Porque ele nunca quis transar comigo? Será que sou repulsiva? Deve ser porque tenho uma coxa três centímetros maior do que a outra. Posso até ver o Fernando em uma mesa de bar, um amigo dele pergunta “mas porque você nunca comeu a Juliana?” e ele responde, sem graça “sabe o que é, as coxas dela são esquisitas”. Com certeza são minhas coxas.
Estaciono meu carro e enquanto espero para que o porteiro abra a porta olho em volta, pensando se existe algum creme para que igualize medidas de coxa e reparo em um elemento que está fora de seu lugar. O carro da Raquel está estacionando na vaga do Roberto.
Com o coração palpitante subo no elevador e tento me acalmar, mas não consigo. Toco a campainha três vezes e o Roberto abre a porta, os cabelos estão despenteados, os olhos inchados. Ele está de bermuda.

- Juliana? O que você está fazendo aqui? – ele pergunta e esfrega os olhos.
- O que o carro da Raquel está fazendo aqui é a pergunta apropriada. – respondo com ódio. – Estava arrependida de ter discutido com você e trouxe panquecas. Pena que são só para duas pessoas, não sabia que você estava acompanhado.
- Pára com isso amor. Ela só dormiu aqui. Entra, vê com seus olhos. Dormi no sofá e ela na cama.
- E porque ela dormiu na sua cama? Na sua casa? Na mesma quadra que você Roberto?! – jogo a tigela com as panquecas na mesa da cozinha.
- Ela estava bêbada, não queria que ela dirigisse. Não sei onde ela mora, portanto a trouxe até aqui.
Sei que o Roberto agiu de boa fé, mas não me interessa. Por mim ela poderia ter morrido em um acidente de carro. Ela não é responsabilidade dele, ela não deveria ser nada para ele. Respiro fundo e repito mantras do Dalai Lama. Porém tudo vai por água abaixo quando ela entra na cozinha enrolada em um lençol.
- Ai desculpa Beto... Não sabia que você tinha visitas.
- Eu não sou visita Raquel, você é. – digo friamente. Piranha.
- Acho melhor você ir para casa Raquel. – o Roberto diz, entregando as chaves do carro dela.

Esperamos ela se vestir e ir embora. Bufo de raiva. Cretino. Piranha. Eles se merecem.

- Achava que tínhamos combinado que você não se relacionaria mais com ela.
- Jú, ela estava bêbada. Não podia deixá-la dirigir. – ele responde, parecendo exausto. – Não agüento essa sua desconfiança Juliana. Você acha o que? Que comi ela ontem?
- Acho.
- Pois não comi. Estou vendo que deveria, já que você vai me acusar de qualquer jeito. – ele diz irritado e bate uma mão na mesa. – Ou então, porque você não trepa com alguém? Assim ficamos quites e você esquece que dei um beijo na Raquel.
- Você acha que isso ajudaria? – pergunto, me preparando para dar a cartada final. Esse é o momento ideal para esfregar na cara dele que o traí. – Você está falando sério?
- Acho que sim.
- Pois fique sabe que eu transei com um cara semana passada. Para te dar O TROCO. – falo com a mesma entonação da Raquel, falando em letras garrafais.
- O que?
- Isso mesmo. Voltei do Rio de Janeiro e descobri que você tinha se encontrado com a Raquel e transei com o Paulo. – minhas mãos estão tremendo mas continuo falando. – Estava cansada de me sentir uma chifruda.
- Certo. Bem. Ãh... Não sei o que te falar. – ele diz, parecendo completamente desnorteado. Por alguns segundos sinto culpa como nunca senti antes. – Acho que estamos quites então.
- Quer dizer que isso não te incomoda? – pergunto, incrédula.
- Incomoda Juliana. E muito. Não consigo te imaginar na cama com outro cara sem querer quebrar a cara dele.

Depois de falar isso ele olha para a tigela de panquecas e começa a chorar. Isso mesmo. Chorar. Fazia muito tempo que não via o Roberto chorando por minha causa. A culpa fica mais forte ainda e seguro as mãos dele. Achava que se ele se sentisse mal a situação se resolveria, mas acabo de perceber que isso só piorou tudo. Eu, conscientemente, fiz algo para magoá-lo. Quis isso por quase um mês, planejei e esperei por esse momento. Agora que ele chegou, gostaria de ter a capacidade de viajar no tempo e mudar tudo, retirar tudo que falei e fiz.

- Acho melhor eu ir embora Roberto. – minha voz está trêmula.
- Não... Espera... Eu... Eu quero você Juliana.
- Mas eu te traí Roberto! – exclamo.
- Eu também. Estamos quites.

Ele me puxa em sua direção e me beija. O abraço até ele parar de chorar. Ele liga a televisão da cozinha e comemos as panquecas frias assistindo um programa de esportes.




Capítulo 7

A neve começou a cair alguns minutos atrás, e mesmo assim a multidão não se move, pessoas não param de chegar. A praça está lotada, os soldados da SS circulam entre os civis. A expectativa aumenta a cada minuto, todos querem ouvir o que o Fürher tem a dizer. Enrolo meu cachecol com firmeza em volta do meu pescoço e esfrego minhas mãos para aquecê-las. Ao longe, um ruído de motor. Todos se calam. Um carro negro se aproxima e as pessoas levantam os braços em euforia, agitando bandeiras da suástica nazista. Ele está em pé no banco de trás do carro, acenando para a massa. Criancinhas sorriem, jovens mulheres olham para o Fürher com admiração e ansiedade, homens com respeito.

Ele sobe em um palanque, ao fundo uma enorme bandeira nazista está exposta. Como sempre, Hitler está impecavelmente vestido e com as feições sóbrias e sérias. Ele estende seu braço direito e a multidão grita, em coro: “heil Hitler”. Ele ajusta o microfone e inicia seu discurso.

- Meus compatriotas alemães. Cheguei à conclusão de que essa guerra é estúpida e inútil. – ele declara, enxugando várias lágrimas com um lenço. – Os judeus não são nossos inimigos, os homossexuais não são aberrações e os doentes mentais devem ser tratados com respeito. Assim que deixar Berlim, irei até a Inglaterra para assinar um acordo de paz e todas as tropas alemãs estão se retirando dos territórios invadidos neste mesmo instante. Os presos dos campos de concentração foram libertados e peço desculpas a todos que prejudiquei. Devolverei todas as obras de arte que foram roubadas das mansões judias e polonesas. Façam amor e não guerra.

- Juliana! Abre a porta, por favor? Eu preciso escovar os dentes!

Olho para os lados e paro de sonhar de olhos abertos. Estou no chuveiro, encostada na parede e olhando para o nada a não sei quanto tempo. Ainda não consigo acreditar que contei para o Roberto que o traí e ainda estamos juntos. Nada saiu como tinha planejado. Abro a porta para a Tatiana e termino de lavar meus cabelos. Enrolo-me no meu roupão e seco meus cabelos com uma toalha. O Roberto aceitar uma traição com tamanha facilidade é como o Hitler admitir que os judeus não são uma raça inferior. O exército brasileiro confessar oficialmente que mantinha células especializadas em tortura. O George W. Bush aprender a ler e escrever corretamente.

Depois que contei o que aconteceu entre o Paulo e eu, o Roberto quis detalhes específicos da nossa transa, onde tínhamos nos conhecido, se eu tinha achado ele melhor na cama. Isso me irritou ainda mais do que ele ter chamado a Raquel para dormir na casa dele. Maldito ego masculino. Maldita síndrome de querer ter o Maior Pênis do Universo. Que diferença pode fazer se ele trepa melhor do que o Paulo? “Toda a diferença Juliana, toda a diferença”, o Roberto me respondeu em um tom solene. Sinceramente, eu não quero saber se a Raquel beija melhor ou pior do que eu, na verdade, prefiro ter minhas fantasias de que ela baba e não sabe como usar a língua. Ou ainda, que ela não tem língua.

De qualquer forma, respondi todas as perguntas do Roberto, sendo o mais honesta possível. Não ia admitir, nem sob tortura, que o pau do meu namorado é levemente menor do que o do Paulo. O que isso acrescentaria ao nosso namoro? Mais problemas, e francamente, já temos o suficiente. Na minha opinião, a honestidade total e completa é impraticável em um relacionamento, seja um namoro, um casamento, uma parceria de negócios, uma amizade. As pessoas não querem ouvir a verdade. As pessoas não querem saber o que você pensa. As pessoas só querem que você diga exatamente o que elas querem ouvir. Eu estou incluída nesse monte. O Roberto, o Paulo, a Sereia Turbinada, a Girafa Anoréxica; todos estamos. A verdade, sobre... bem, a verdade, é que se fôssemos sempre sinceros uns com os outros, ninguém teria amigos, namorados, maridos, amantes, colegas de trabalho. Todo relacionamento tem sua cota de desonestidade e segredos, e a maioria sabe, mesmo que não admita em voz alta. O que muitos ainda não aprenderam, é que as relações não sobreviveriam sem as mentiras.

A primeira vez que conheci os pais do Roberto foi durante um almoço de família, e a comida estava uma porcaria. O arroz grudento, o feijão queimado e a carne de porco. Mas elogiei os pratos e comi duas porções de filé suíno com molho de laranja. Jamais vou revelar a qualquer pessoa do escritório que a Lurdes é uma vaca, a descrevo como “exigente”, “partidária da disciplina” e outros eufemismos. Pois muitas vezes, as mentiras são apenas eufemismos. A verdade dói e fede, não custa nada vesti-la com uma roupinha de grife, passar um batom e um perfume francês.

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Capítulo 6 [01 Nov 2005|07:14pm]
[ mood | sleepy ]
[ music | Joss Stone - torn and tattered ]

- Não acredito que você fez isso Juliana. – o Fernando fala, se levantando. – Mais alguém quer um martíni?
- Eu quero! – grita Tatiana. Acho que ela deveria ter parado no segundo copo. – quer dizer que você transou com um cara logo depois de sair da casa do Roberto?
- Sim. – respondo, com um olhar desafiador. Já se passou uma semana desde a minha ficada com o Paulo e não sinto remorso. Muito pelo contrário, estou me perguntando como não pensei nisso antes. – Na verdade Tatiana, eu fiz isso pelo Roberto e eu. Como julgar uma traição se eu nunca traí o meu namorado? Agora entendo como é bom e não posso recriminá-lo.
- Você achou bom Jú? – ela me pergunta, incrédula.
- Óbvio que ela achou! – o Fernando berra da cozinha.
- Claro que foi bom, eu estava dando o troco que ele merecia. – respondo. – Não tem nada a ver com ser proibido ou não. Eu não estava fazendo nada de errado. Tecnicamente falando.
- Mas você ficaria de novo com o Paulo?

Demoro um pouco para responder. Me fiz essa pergunta inúmeras vezes desde que transamos e para ser honesta, acho que sim. Minha idéia inicial era transar com o Paulo para ficar quite com o Roberto e fazê-lo se sentir mal, eu não contava com uma transa maravilhosa e a total ausência de culpa. Total ausência? Sim. Total, completa e irrefutável.

- Não sei Tatiana. Não pensei nisso ainda.
- Pois eu aposto trinta reais que no máximo daqui duas semanas vocês se pegam de novo. – o Fernando declara entregando um copo de martíni para a Tatiana. – Sexo é ainda melhor quando é proibido. Esse é um dos maiores motivos para a monogamia dar errado: ela incita a traição.
- Fernando, você é nojento. – digo me sentindo um pouco zonza. - Da próxima vez que eu encontrar uma mulher com quem você esteja ficando vou partilhar da sua teoria com ela.
- Algo me diz que ela não gostaria. – diz Tatiana, caindo na gargalhada depois.
- Seus planos continuam os mesmos? Você vai contar tudo para o Roberto? – pergunta Fernando.
- Ãh... Bem... Não sei. O maior benefício dessa situação é que a raiva que sentia dele se evaporou. Agora quero que nosso namoro dê certo. Estranho não? Uma traição me fez amar meu namorado mais.
- Bem-vinda ao meu mundo. – O Fernando me dá um abraço e um beijo no canto da boca. – Sempre defendi que a melhor maneira de perceber seu amor por alguém é ficando com outra pessoa. Assim você se toca que os defeitos da sua cara-metade não são tão graves assim.

Fico devidamente indignada com a resposta do Fernando mas concordo secretamente com ele. E como poderia fazer o contrário? Foi exatamente o que aconteceu comigo. Saí do apartamento do Paulo pensando no Roberto, no dia dos namorados, nas provas de amor que ele tem me dado, na nossa intimidade, na nossa relação e pela primeira vez desde da Revelação senti apenas amor por ele. Amor puro, simples e tranqüilo.

- Quer dizer que ao invés de terapia de casal você recomenda traição para um casal com problemas amorosos? – A Tatiana pergunta e ri logo em seguida. A voz dela está ficando pastosa.
- Melhor a gente mudar de assunto, daqui a pouco o Roberto está chegando. – falo, dando um beliscão na perna da Tatiana.
- Para onde vocês vão? – o Fernando pergunta.
- Uma festa de aniversário de um amigo do Roberto, o Marcelo.

A campainha toca e me levanto do sofá para atender a porta. É o Roberto. Quando o vejo sinto borboletas voando na minha barriga. Ajeito o cabelo e o recebo com um longo beijo. Ele cumprimenta a Tatiana e o Fernando – que ao contrário das minhas expectativas, estão se comportando normalmente com o Roberto – e toma um martíni conosco antes de irmos embora, de mãos dadas e felizes.

Enquanto ele dirige vou abaixando minha mão lentamente e acaricio a virilha dele, depois o pau que já está duro, fazendo movimentos circulares. Continuo olhando para frente e ele também, nenhum dos dois emite qualquer som. Tiro o pau dele de dentro da calça e me sinto ficando molhada, me imagino emcima do Roberto e minha respiração fica mais pesada. Abaixo as alças da minha blusa até a cintura, deixando meus seios expostos, tiro minha calcinha e abro minhas pernas. Enfio dois dedos dentro de mim e com a outra mão aperto meu seio enquanto o Roberto faz o mesmo com o outro. Minha respiração se transforma em sussurros e meus sussurros se transformam em gemidos. Uma onda de prazer toma conta de mim, seguida por outra e elas se sucedem em círculos, até a explosão final que me faz gritar uma vez e fechar minhas pernas de sopetão. Começo a me vestir e o Roberto pára o carro, solta o cinto de segurança e beija meus seios com tanta força que acaba mordendo-os.

- Espera meu gatinho... Quando a gente chegar na festa eu continuo. – sussurro no ouvido dele, entre gemidos.
- Assim não é justo. – ele responde e beija minha barriga. – Eu te quero agora.
- Agora não. – respondo com mais firmeza.
- Está bem. – ele diz fechando o zíper da calça. – Mas eu vou cobrar.

A noite está perfeita para uma festa a céu aberto: estrelas, lua nova, temperatura agradável. O Marcelo alugou uma casa de festas na beira do lago e a mansão é impressionante: pista de dança, dj, luzes, bar com escolhas diversas de drinques e mesas de sinuca.
Depois de pegarmos nossas bebidas (uísque para ele e marguerita para mim) vamos até a pista de dança. O Roberto tem uma qualidade que é raríssima em homens (pelo menos os heterossexuais): ele não só adora dançar como dança de forma sensual. A primeira vez que fui a uma boate com ele, esperava mais uma noite tediosa assistindo a todos dançando menos eu, bebendo em um canto, na escuridão. Qual foi minha surpresa quando ficamos na pista até cinco da manhã, dançando e curtindo ao som de hip hop? Naquela noite me apaixonei por ele.
Uma música do Snoop Dog começa a tocar e o Roberto me abraça por trás e entendo o que ele está querendo dizer. Viro-me e nos beijamos, ele me pega pela mão e me leva até o jardim. Escondidos por uma cerca viva, ele levanta minha saia e abaixa minha calcinha com movimentos rápidos e bruscos, enquanto abro a calça dele. A transa é rápida e silenciosa, minhas costas estão apoiadas em uma árvore, uma perna no chão e a outra levantada, se prendendo à cintura dele. As mãos dele agarram minha bunda e o queixo dele está encostado no meu ombro, meus cabelos por cima do rosto dele.
Ouvimos passos e nos vestimos com pressa, rindo. Assim que fecho o último botão da minha saia, duas pessoas aparecem ao lado dos arbustos: o Marcelo e a Girafa Anoréxica segurando taças de champanhe. Ela está usando uma frente-única preta que deixa muito pouco à imaginação (na minha opinião, os estilistas criam essas roupas com a quantidade mínima de pano possível, apenas o suficiente para que quem as vista não seja presa por atentado ao pudor), uma calça que sempre quis comprar mas meu orçamento não permite. O penteado dela está imaculado, nenhum fio fora do lugar. O decote dela é impecável, a maquiagem sensual. Ela é uma barbie.
E daí se a calça dela custou 400 reais? Você não deveria deixar que esse tipo de detalhe afete sua autoconfiança. Não é porque vocês têm belezas diferentes que quer dizer que ela é melhor. Sei. A expressão “belezas diferentes” é uma forma politicamente correta de falar que uma é feia e outra bonita. No caso da Girafa Anoréxica, ao olhar para elas os homens se sentem atraídos em segundos, porque além da beleza física, ela não parece se importar com eles.
Faço uma comparação mental de nós duas: ela está imaculada, cada prega da calça no devido lugar. Minha blusa está levemente amassada e se não me engano, algumas folhas estão presas na parte de trás do meu cabelo. O maior motivo da minha raiva da Raquel, não é que ela quer agarrar meu namorado, mas que toda vez que a encontro, me sinto como uma mancha de feijoada em um vestido de noiva.

- A gente está interrompendo alguma coisa? – a Girafa pergunta, com uma voz doce. Ela olha o Roberto intensamente e depois me olha. Sinto vontade de sair correndo e me esconder no banheiro.
- Cinco minutos atrás teriam. Agora não mais. – respondo. “agora não mais”? Estou me metamorfoseando na Lurdes.
- Que bom. ODIARIA cortar o clima entre vocês dois. – ela diz, frisando as letras capitais do verbo “odiar”. A Raquel é o tipo de mulher que alfineta usando letras capitais.

O Roberto e o Marcelo estão nos olhando com apreensão e expectativa, divididos entre o constrangimento criado pela situação e a esperança que arranquemos nossas roupas durante uma briga e rolemos na lama só de calcinha e sutiã.
Decido ser a Pessoa Digna e deixá-los a sós e me divertir com o Roberto, até me deparar com o olhar maldoso da Raquel. Ela sabe que me deixa insegura, que está por cima e aproveita cada segundo, esperando o momento ideal para dar a tacada final; como os gatos que antes de devorar um passarinho, se distraem o torturando.
Sempre vi amor e sexo como um jogo no qual os valores de todos que participam caem e sobem, como no mercado de ações. O valor inicial de cada mulher e cada homem é determinado por diversos fatores, mas dois são essenciais: beleza e juventude para a mulher e poder e dinheiro para o homem. Não estou dizendo que aprovo esse sistema, apenas que ele existe. As mulheres dirão que são mais injustiçadas e concordo. É muito mais fácil ser rica do que bonita, mas essa não é a questão. Duas pessoas têm mais chances de dar certo caso tenham o mesmo valor de mercado, é uma relação equilibrada. No entanto, se uma sabe que seu valor de mercado é maior do que o do companheiro, a relação pode atingir níveis críticos de desequilíbrio (leia-se traições, brigas, foras, pedidos de tempo, etc.).
Amor é poder e todos sabem disso e aí que entra a ironia: quem sente menos amor tem mais poder. A pessoa que menos se machuca, a que se recupera mais rápido de uma separação, a que tem mais facilidade em virar as costas e ir embora é aquela que determina as condições, que dá as cartas.
Em um certo ponto do meu namoro com o Roberto, ele tinha todas as cartas (ele pediu um tempo, ele decidiu voltar a namorar, ele ficou com a Girafa Anoréxica) e a minha única opção era jogar com aquilo que ele estava disposto a me dar. Ainda bem que como no mercado de ações, no namoro em uma noite você pode passar de Rei do Mundo a Mero Vassalo. Desde que traí o Roberto é exatamente o que está acontecendo entre nós dois: um re-equilíbrio de forças e logo ele estará no meu lugar e eu no dele.
Pensando em tudo isso beijo o Roberto. Aperto a bunda dele e sorrio para a Raquel. Quase dou pulos de alegria ao ver a expressão de choque no rosto dela. Os olhos estão arregalados, a boca contraída e a testa franzida.

- CLARO que sim. – respondo, usando o mesmo tom de letras capitais. – Você está gostando da festa?
- Estou, acho que – ela responde e espero ela falar um pouco para interrompê-la.
- Licença Marcelo, mas perdi minha marguerita. Vou buscar outra. – digo com educação e seguro a mão do Roberto, já a caminho do bar. - Amor, vem comigo?

Ele me acompanha e pedimos nossas bebidas, minha expressão está impassiva mas por dentro faço uma dança da vitória. A cara dela! SIM! A cara dela! Enquanto o barman prepara nossos drinques, entro no banheiro e pulo várias vezes, jogo meu punho fechado para o alto. Sento no vaso sanitário e não controlo as minhas risadas. Estou rindo de pura alegria e satisfação.
Espero alguns segundos para me recompor e volto ao bar, onde o Roberto está me esperando com dois copos nas mãos. Ele está procurando por alguém e a expressão dele não é das mais convidativas.

- O que foi amor? – pergunto pegando o meu copo. – Aconteceu alguma coisa?
- Você tinha que fazer essa cena?
- Do que você está falando?
- Para que você tinha que me beijar daquele jeito na frente dela e virar as costas quando ela estava falando? – ele explode, com raiva.
- Pelo mesmo motivo que ela tinha para ser desagradável comigo. – respondo com minha voz de Tigresa. Sinto que vamos discutir e não me importo. – Você está incomodado porque te beijei na frente dela ou porque fui grosseira com ela?
- Você sabe que ela gosta de mim. – ele diz, em um tom de voz mais baixo e menos agressivo. Ele sabe que está errado. Ele sabe que está em desvantagem.
- Ela sabe que estamos juntos, isso não impede que ela dê emcima de você.
- Juliana, isso é paranóia sua. Nunca mais ela me procurou.
- Você está mentindo Roberto. Você sabe que está. Eu sei que você está. Você só não sabe que eu sei que você não sabe que eu sei.
- O que? – ele me olha confuso, como se eu fosse louca. Droga. Estou me enrolando e perdendo território. – Que porra você está querendo dizer?
- Como é que é? – retruco, com raiva. Não vou mais tolerar esse comportamento dele. – Roberto, não sou uma qualquer com quem você fala desse jeito. Não sou a Raquel. Se você está mais preocupado com os sentimentos dela do que com os meus, deveria estar com ela.

Termino minha marguerita de uma vez e saio em direção à porta e não torço para que ele me peça para ficar como normalmente faria. Ele que se dane, ela que se dane, eles que se danem juntos. Não preciso desse palerma, ele que precisa de mim. Chamo um táxi e em seguida ligo para o Fernando, mas ele não atende. Antes que eu tenha tempo de ligar para a Tatiana, avisto um táxi e vou para casa.


As luzes da sala estão apagadas, os copos de martíni estão no chão, meio cheios ainda. O celular do Fernando está emcima da mesa de centro, assim como a chave do carro dele. Dou uma risada maternal, e penso “ele deve estar totalmente bêbado, jogado na minha cama”. Me dirijo até meu quarto e fico surpresa: minha cama está vazia, feita, ninguém se deitou nela desde de ontem à noite. Neste momento ouço um barulho de descarga e a porta do banheiro se abre. O Fernando sai, totalmente nu. Abafo um grito tampando minha boca com a mão mas ele me ouve e se esconde com as mãos.

- Porque você está passeando pelado na minha casa? – pergunto, fazendo o possível para relevar o tamanho do pinto dele e que ele está praticamente exposto.
- A gente achava que você dormiria na casa do Roberto. – ele responde, acanhado. Isso deveria ter sido explicativo o suficiente, o Fernando nasceu sem o gene da vergonha.
- A gente quem? – exclamo.
- A Tatiana e eu.
- Como assim? Do que você está falando... – minha voz fica mais baixa e entendo perfeitamente o que ele está tentando me dizer. Ele está trepando com minha amiga. –
- Aconteceu alguma coisa Jú? Porque você voltou tão cedo?
- Ãh... Não, nada... Ãh... Vou dormir. Boa noite.

Fecho a porta do meu quarto antes que ele possa falar alguma coisa. A Tatiana e o Fernando? Não dá para acreditar, por mais que tente. Para começar ela não faz o tipo dele. O Fernando gosta de mulheres bonitas, inteligentes, instigantes, misteriosas. Não que a Tatiana seja burra ou feia, eu jamais diria isso da minha amiga. Ela apenas faz uma linha mais discreta, apenas isso. Como uma dona-de-casa por exemplo.
O Fernando precisa de uma mulher independente, esperta, que não dependa dele para nada e tope qualquer coisa na cama, penso, enquanto tiro meu sutiã. Uma mulher com senso de humor mordaz, uma mulher versátil, uma mulher vaidosa. Não uma menina que mal faz as unhas, e ri de piadas do estilo “porque o fandango se suicidou”.
Ora, ora, ora Juliana. Será que a senhorita está com ciúmes? Fico imóvel, segurando meu sutiã com as duas mãos. Não. Claro que não. Ciúmes do que? De quem? Do Fernando minha querida. Para ser ainda mais específica, da Tatiana estar transando com ele nesse exato momento. Voz Interior, de todas suas teorias malucas, essa é a pior de todas. O Fernando é meu amigo, nada de mais. Logo, ele pode transar com quem ele quiser. Até a Tatiana. Se ele quer levar uma menina sem sal para cama, o que posso fazer? Nesse momento sento na beirada da cama e balanço a cabeça, tentando negar o óbvio. Estou me mordendo de ciúmes.
Encosto a orelha na parede, e não ouço nada; eles devem estar dormindo. Amanhã me preocupo com isso. Por hoje chega de emoções fortes. Depois de uma hora imaginando as loucuras sexuais que eles devem ter feito, consigo pegar no sono.

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Continuação capítulo 5 [27 Oct 2005|03:51pm]
[ mood | working ]
[ music | Placebo - every me and every you ]

Duas horas depois estou no restaurante do hotel vestida impecavelmente com meu modelito trabalhadora-eficiente (terno vinho com risca de giz, camiseta branca, cabelos presos) fazendo meu pedido a um garçom (salada de salmão com molho mostarda). A primeira conferência de hoje será sobre trabalho infantil e enquanto estava no meu quarto li algumas pautas sobre o assunto e me sinto pronta. Depois da conferência vamos debater as soluções possíveis. Vou me levantar e expor todas as minhas idéias e os representantes da Unicef se surpreenderão com meu potencial. Representantes de organizações internacionais se levantarão emocionados, jornalistas transmitirão ao vivo o meu discurso inflamado. Será o início da luta efetiva contra as injustiças cometidas contra as crianças não só no Brasil mas no mundo inteiro. As manchetes de todos os jornais exibirão a seguinte manchete: Juliana Albuquerque; a nova voz em defesa da infância e juventude. Sem querer mordo minha língua e volto a prestar atenção na conversa em volta da mesa.

- Juliana você será responsável pelo controle das despesas da viagem. Em todos os lugares que formos peça notas fiscais, e toda noite passe no quarto de seus colegas e colete as notas fiscais deles. Faça um balanço diário de gastos e me repasse na manhã durante o desjejum. Quando voltarmos faça um resumo das pautas discutidas nos seminários de hoje. Me entregue no final da noite, assim que forem terminados.
- Claro senhora Lurdes. – respondo automaticamente enquanto na verdade estou me perguntando quem mais fala “desjejum” no dia-a-dia.
- Organize também um roteiro interessante e relaxante para hoje à noite.
- Como assim? – porque fiquei nervosa?
- Para nosso lazer. Uma noite em algum piano bar, uma peça de teatro, encontre alguma coisa.
- Sim senhora, mas como vou fazer isso enquanto estou no seminário?
- Você não vai hoje. – ela responde sorrindo educadamente e o resto da mesa fica silenciosa. Vaca.
- Ãh. Claro, senhora Lurdes. – Vaca. Vaca. Vaca. – Quando vocês estiverem de volta tudo estará pronto.
- Assim espero. – ela responde ao mesmo tempo em que faz sinal para que o garçom traga a conta. – Às sete estaremos aqui.

A conta é paga e guardo a nota fiscal. Assisto todos entrando em táxis e amasso a nota fiscal na minha mão. Vaca. Vaca. Vaca. Tenho vontade de gritar que sou assistente e não agente de viagens mas fico calada e subo até o meu quarto. Jogo a nota fiscal dentro da primeira gaveta da escrivaninha e tiro meu terno e minha calça. Vaca.
Fico de camiseta e calcinha, sentada emcima da cama, olhando para a parede. Deveria ter imaginado que ela não me delegaria nenhuma função importante mas isso é absurdo. Não estou pedindo a permissão para conduzir os seminários, apenas algo mais importante do que ser a contadora da viagem.
Abaixo minha cabeça e as coloca nas minhas mãos: com que cara vou passar de quarto em quarto, pedindo para que pessoas vinte anos mais velhas me dêem satisfação de como gastaram o dinheiro da empresa? Agora sim que vou ser odiada por todos. Vaca.
Não sou uma secretária. Vaca.

Abro minha mala e escolho uma calça jeans, um par de chinelos, pego as chaves do quarto e saio. Se for obrigada a passar a tarde me dedicando a uma tarefa desagradável, que seja em um local agradável. Informo-me na recepção sobre o cybercafé mais próximo e vou caminhando até ele. Durante o resto da tarde faço pesquisas turísticas sobre a vida noturna do Rio de Janeiro movida a várias xícaras de expresso e faço uma lista de quatro opções de lazer para todos os gostos. Volto para o quarto às seis e meia me controlando para não chorar na frente do ascensorista. Deve ser a cafeína.
As sete horas em ponto a Lurdes se apresenta no meu quarto e trocamos a minha lista de opções de saída pela pasta dela, cheia de anotações. Percebo que todos vão passar a noite se divertindo e eu trabalhando. Com a ajuda do laptop que o Roberto me emprestou, várias latas de refrigerante do frigobar e a MTV, viro a noite fazendo resumos, decifrando caligrafias incompreensíveis e tento não pensar que poderia estar em Brasília transando loucamente com o Roberto.
Cada vez que penso no Roberto sinto saudades e um desejo forte de sentir ele me abraçando, de ouvir ele falando que vai ficar tudo bem, que eu mereço coisa melhor. A cama me parece grande demais e o quarto vazio, estéril. Às quatro horas da manhã vou dormir me prometendo que amanhã o dia será melhor.

No dia seguinte aprendo que a esperança deveria ser a primeira a morrer e não a última. Na mesa do café da manhã a Lurdes me entrega um bloco de anotações, outro bloco de textos oficiais, uma caixa recheada de notas fiscais da noite anterior e sei que meu dia será dedicado a traduções e contas matemáticas enquanto todos assistem palestras e debates. Tento esboçar um sorriso mas não consigo, tenho vontade de esvaziar minha xícara de café com leite na saia creme dela. Vaca.
Ao chegar no meu quarto ligo para o Roberto mas minha ligação cai diretamente na caixa postal. Imaginando que ele ainda está dormindo, começo a trabalhar. Uma lista de notas fiscais de bares e teatros desfila em frente aos meu olhos e vejo todos se divertindo, bebendo coquetéis elegantes decorados com enfeites em forma de guarda-chuvas enquanto eu estava trancafiada dentro desse quarto com os olhos grudados em um tela de computador. Durante duas horas minha mente alterna cenas nas quais meus colegas de trabalho dançam ao som de jazz, minhas mãos teclando freneticamente madrugada adentro e do Roberto dormindo sozinho na cama dele.

Duas horas depois termino o balanço financeiro de ontem e estico meus braços para cima, viro meu pescoço para a esquerda e direita. De repente percebo que o Roberto não retornou minha ligação, que hoje é quarta-feira e ele provavelmente não está dormindo até agora. Ligo novamente e a caixa postal é acionada. Entro em pânico: porque o celular dele está desligado?
Calma Juliana, não seja paranóica. Provavelmente a bateria acabou e ele está no trabalho, sem o carregador. Tudo tem uma explicação racional. Não é porque o celular dele está desligado que necessariamente ele está transando com a Girafa Anoréxica. Somente uma pessoa neurótica e desconfiada pensaria assim e eu sou uma namorada relaxada e tranqüila que confia cegamente no seu Namorado Exemplar.

Tomo um banho para me distrair e esfriar a cabeça. Os jatos quentes de água batem nas minhas costas massageando algumas áreas tensas e relaxo. Me enrolo em um dos roupões brancos engomados e me dirijo até a cama. Olho para o laptop aberto emcima da escrivaninha e mando ele ir para o inferno. Ligo para o serviço de quarto e peço uma salada para o almoço acompanhado de um bloody mary. Você não deveria beber no almoço mocinha, ainda mais com uma pilha de documentos para resumir. Relaxa um pouco Voz Interior, você tem que aprender a desacelerar. Aguardo meu pedido trocando canais, ignorando o meu celular que continua silencioso.
Em um impulso o desligo e jogo na mala. Se aquele Bastardo não está com saudades de mim, ele que se dane. Almoço calmamente e degusto meu bloody mary, saboreando a vodca e fico mais serena. O resto da minha tarde é dedicado a resumos de anotações e documentos e às sete horas em ponto a Lurdes me entrega mais papéis para serem classificados. Vaca.

Me controlo para não bater a porta na cara dela e volto para o quarto. Olho à minha volta: o prato do almoço ainda está aqui e o ar está com um leve cheiro de frango, a cama está totalmente desfeita, a televisão ligada no modo silencioso. Me olho no espelho do banheiro; meu rosto está pálido e olheiras fundas aparecem debaixo dos meus olhos. Juliana, vai dar uma voltinha, daqui meia hora você volta. Por uma vez concordo com minha Voz Interior e em quinze minutos estou vestida, maquiada e perfumada. Pego um mapa da cidade na recepção e decido para onde ir: o pão-de-açúcar.
Chegando na base do pão-de-açúcar compro uma entrada e após uma espera de quinze minutos embarco no primeiro teleférico, empurrada pela massa de turistas.

O teleférico tem em média vinte metros quadrados e pode comportar cinqüenta pessoas. A subida é feita em duas partes, cada parte em um teleférico diferente. A medida que o carro sobe a paisagem fica menor e o campo de visão aumenta. Dá para ver a praia de Copacabana, o centro ao lado, a lagoa Rodrigo de Freitas e bem ao fundo o cristo redentor. Quem acha que a subida e descida é tranqüila está enganado; devido ao vento não é incomum que o teleférico balance fortemente. Quando isso acontece é bom ter por perto um ombro masculino para se agarrar e esconder o rosto.
O meu namorado está vários quilômetros longe de mim e a única coisa à qual posso me agarrar é um cano de alumínio. Se essa geringonça cair não vou ter a quem me segurar, nenhum pescoço cheirando a loção pós-barba. O último cheiro que vou sentir será de metal e suor humano. Os últimos sons que vou ouvir serão meus gritos de pânico e os gritos de desconhecidos e não um "eu te amo" sussurrado entre lágrimas de adeus. Meu namorado só vai ficar sabendo que me perdeu daqui dois dias e será tarde para ele confessar o tamanho do real amor que ele tem por mim e...
Um apito estridente avisa que chegamos ao topo. As portas se abrem depois de um minuto e desembarcamos em uma plataforma parecida com a de um aeroporto. O vento é frio e agradável, me sento em uma das várias cadeiras de metal que estão espalhadas, perto da grade de proteção e observo as luzes da cidade. Um casal de adolescentes se senta ao meu lado e troca beijos barulhentos e molhados. A saudade que sinto do Roberto aumenta e me pergunto pela centésima vez o que ele pode estar fazendo de tão importante.

Ao retornar peço ao taxista que pare dois quarteirões antes do hotel para caminhar. Estou rejuvenescida e disposta a encarar os pedidos sem sentido da Lurdes. Vejo que tenho que adquirir uma nova postura para com os obstáculos da vida, ser mais positiva. Pensando nisso entro em uma livraria e compro um livro do Dalai Lama. Se existe uma pessoa que entende de atitude positiva e relaxada é ele. Vou me transformar em uma nova mulher: vegetariana, que nunca se preocupa com namorados que não retornam telefonemas, praticante assídua de ioga, com paz de espírito, livre de pertences superficiais como bolsas e sapatos de grife.
Bem, talvez não me livre dos sapatos, mas com certeza das roupas que não cabem mais. Menos aquela calça da diesel; afinal eu devo emagrecer fazendo pilates (praticamente ioga) e conseguirei fechar aquele botão. Mas isso não importa e sim que a felicidade se encontra na elevação do espírito e não na compra desenfreada de bens ou ligações telefônicas.

Ao entrar no lobby do hotel o recepcionista me entrega várias folhas com recados e uma pasta verde. Sorrio educadamente e subo até o meu quarto. Sentada na cama leio os recados da Lurdes (“por gentileza, faça um gráfico em cores dos gastos de cada funcionário. Entregue no meu quarto até as 22h00. As traduções e relatórios devem ser entregues as 9h00 da manhã”) e meu sorriso não se abala. Isso não me irrita. Isso não me atinge. Estou acima de preocupações mundanas. Me sento na escrivaninha, ligo meu Ipod, abro o laptop e começo a trabalhar energicamente e termino tudo às nove e meia, entrego prontamente para a Lurdes.
Volto ao quarto e tento não olhar meu celular, com certeza ele não ligou. Tomo banho e tento pensar em outras coisas mas a mesma frase dá voltas na minha cabeça: “porque ele não ligou?”. Será que ele teve um acidente de carro? Será que ele está com outra mulher? Pior ainda, com a Raquel?
Lembro da minha nova atitude zen enquanto o jato de ar quente do secador passa pelos meus cabelos, das poucas páginas que já li do meu novo livro. “Não deixe os pequenos empecilhos da vida se transformarem em muralhas intransponíveis”. Visto uma calcinha fio dental preta e uma regata branca e me sento na escrivaninha em frente ao laptop. Ataco os relatórios tediosos cantarolando músicas do Frank Sinatra com tanta empolgação que só ouço meu celular tocando no sexto toque. É o Roberto.

- Oi minha linda, desculpa a hora.
- Tudo bem, estou acordada.
- Passei o dia fora de casa e esqueci meu celular antes de sair. – ele fala, preocupado. – Espero que não tenha ficado chateada.
- Não fiquei. – respondo, concentrada nos gráficos. – O que você fez hoje?
- Só trabalhei e tive um almoço de negócios. – ouço burburinho característico de bar no fundo. – Estou exausto.
- Onde você está?
- Vou tomar uma cerveja com o Marcelo para relaxar. – Marcelo é um dos maiores amigos do Roberto, muito simpático. – Estou precisando.
- Que bom amor. Melhor eu desligar, tenho muita coisa para fazer.

Desligo o telefone depois de ouvir ele falar que me ama e recomeço a trabalhar satisfeita, o Dalai Lama tem razão: assim que encaramos os pequenos problemas com a devida proporção, eles desaparecem. Sou uma nova pessoa, com paz de espírito. E tudo isso por apenas 27 reais e 99 centavos.

O dia seguinte é o último dia da conferência e decido arriscar: peço a Lurdes para assistir as palestras. Ela fica calada durante alguns minutos me olhando intensamente e tenho certeza que ela vai aceitar. Em um momento de clareza vejo que no fundo ela é uma boa pessoa e o motivo pelo qual ela é rígida comigo é para me ensinar o valor do trabalho, para que no futuro não desmereça os pequenos funcionários. Depois de dois dias enfornada em um quarto de hotel ela deve ter percebido que sou uma funcionária séria e dedicada, merecedora de confiança.

- Então senhora Lurdes, posso assistir alguma palestra hoje?
- Acho melhor não Juliana. Não considero apropriado. – ela responde e vira as costas, em direção ao saguão para se encontrar com os outros.

Vaca.
Não, não devo seguir essa linha de pensamento, tenho que me manter zen, em harmonia com tudo e todos que estão a minha volta. Não tem ninguém a sua volta Juliana... Todos eles estão no seminário enquanto você está aqui, preste a passar mais um dia na frente da tela de um computador. “Faça o melhor que pode com o que tem” respondo com superioridade. Como você pretende transformar uma tarde trabalhando com algo entediante, que você não gosta em algo positivo? Até eu concordo com você Juliana, essa mulher é uma vaca. Isso é algo que a Antiga Juliana diria e não a Espiritualizada Juliana.

De volta à escrivaninha planejo os gráficos ao som de Usher e ignoro a frustração que está aumentando a cada página de números que transfiro para o computador. Paro por alguns minutos para respirar fundo e fazer alguns movimentos de ioga, penso em pedir um hambúrguer ao serviço de quarto porém opto por uma salada de berinjela e palmito. Mente sã em corpo são. Olho para o relógio: seis da tarde, eles devem estar voltando. Não consigo conter minha irritação: três dias no Rio de Janeiro durante uma conferência internacional e qual o meu desempenho? Controlar gastos alheios, traduzir anotações que serão jogadas fora em uma semana e escrever relatórios que ninguém vai ler. Vaca.
Imprimo todo meu trabalho e ao invés de repetir o mantra “faça o melhor que pode com o que tem” ou “não deixe os pequenos empecilhos da vida se transformarem em muralhas intransponíveis”, repito incessantemente “vaca. Vaca. Vaca. Vaca”. Jogo todas as folhas dentro de uma pasta de cartolina e as entrego para a Lurdes e antes mesmo de entrar no meu quarto já tomei minha decisão: a garrafa de champanhe do frigobar está implorando para ser consumida.

Uma hora e meia depois estou em perfeita paz com minha vida. Sou sem dúvida a mulher mais bonita que já vi, em todos os sentidos: meu corpo é perfeito, meu cabelo sedoso, minha mente brilhante, meu coração puro. E aquela vaca gorda que vá para o inferno. Faço um monólogo inflamado, falando tudo que penso sobre ela quando batem à minha porta. Visto um roupão rapidamente e abro: é o Lucas, o estagiário. Até o estagiário assistiu às palestras. Vaca.

- Sim? – pergunto com frieza. Minha voz está levemente pastosa. Talvez a garrafinha de vodca tenha sido um exagero.
- A Lurdes me pediu para avisá-la que o jantar de encerramento será as oito e meia em um piano bar no Leblon onde os outros participantes da conferência estão.
- Eu vou? – respondo sorrindo, batendo as mãos. Sei que deveria me conter na frente de um estagiário mas o prospecto de sair desse quarto e interagir com pessoas é bom demais.
- Claro. – ele responde como se eu fosse perturbada mentalmente.
- Estarei lá. – digo, com minha voz de Profissional Eficiente. Ou pelo menos o mais próximo dela que consigo depois de uma garrafa de champanhe e uma dose de vodca.

Merda merda merda merda merda. Estou absolutamente bêbada. Não posso aparecer no jantar assim, mas também não posso perder essa oportunidade. Tenho trinta minutos para ficar sóbria e me arrumar. Merda. Peço seis cafés pelo telefone, entro no chuveiro e fico cinco minutos debaixo da água gelada. Me maqueio enquanto entorno os cafés, e apesar de uma leve melhora, continuo vendo tudo dobrado. Abro o frigobar em desespero, na esperança que uma poção mágica anti-bebida tenha se materializado mas não encontro nada além de energético. Merda. Fico olhando para o energético na prateleira do frigobar, levanto os ombros e bebo todo o conteúdo da lata. Mal não pode fazer.
O Dalai Lama jamais ficaria bêbado logo antes de uma noite de drinques com os colegas de trabalho. Me lembro que budistas não podem beber. Quem é ele para falar o que quer que seja então? Merda de budista bicho-grilo.
Me olho no espelho uma última vez e saio do quarto em direção ao lobby onde todos me esperam. Merda. Seja o que os deuses quiserem.


“Senhores passageiros, por favor apertem seus cintos de segurança, estaremos decolando em cinco minutos”. Merda de comissárias de bordo que usam o gerúndio em toda e qualquer ocasião. Estou no meu assento, com os fones do meu Ipod nas orelhas apenas para evitar qualquer tipo de contato com meus vizinhos. Minha cabeça dói, minha boca está seca, estou com sono e seguro firmemente o saco de vômito. Essa viagem foi um desastre, e ontem a noite foi a cereja emcima do bolo.
Ao sair achava que estava me sentindo melhor, o energético e as seis taças de café estavam me ajudando a recobrar a consciência e, sinceramente, não acho que as pessoas percebiam quão bêbada estava. Quando me perguntavam porque estava calada, apenas acusava cansaço e no trajeto de táxi me recuperei totalmente: estava alerta, feliz, quase eufórica. Não parava de rir, contar piadas e de conversar com o taxista e meus colegas de trabalho. Socializei com todos os convidados, ouvindo blues e jazz, a vida parecia perfeita. Nem os dois martinis que tomei derrubaram meu ânimo.

Foi aí que conheci um professor universitário a serviço para a unicef (qual o nome dele mesmo?) com quem conversei uma boa parte da noite e dancei tango, de forma “teatral” como a Lurdes me falou essa manhã. “Teatral”, “energética”, “alegre” foram alguns dos adjetivos que usaram para descrever meu comportamento de ontem. Em outras palavras: “bêbada”.
Quando voltamos para o hotel não estava com um pingo de sono e arrumei minhas malas, reorganizei as bebidas no frigobar por ordem alfabética e limpei o banheiro. No momento me pareceu um gesto bem educado, um agradecimento às camareiras que passam seus dias limpando vasos sanitários usados por outras pessoas, em hotéis luxuosos aonde elas não podem se hospedar. Me emocionei com essa hipocrisia social e chorava enquanto limpava o boxe com meu xampu de quarenta e cinco reais (não encontrei nenhum produto de limpeza e o serviço de quarto se recusou a me emprestar algum).
Abro meu livro sobre o Dalai Lama na esperança de encontrar algum conselho para largar o hábito de beber e pego no sono cinco minutos depois. Acordo com o impacto do trem de pouso na pista do aeroporto. Lar doce lar.


- Você é muito deliciosa meu amor. – o Roberto sussurra no meu ouvido, ainda ofegante.
- Você que é. – respondo, exausta. Estou suada e minhas pernas estão tremendo. – Acho que essa foi a melhor transa que já tivemos até hoje.
- É a saudade.

Nos beijamos e alguns minutos depois ele vai tomar banho. Logo que cheguei vim para a casa do Roberto e foi uma ótima decisão. Estava me sentindo péssima e precisando de reconforto. Jantamos comida tailandesa, assistimos um filme e trepamos loucamente. Estou revendo nossa transa quando o celular dele emite um bipe: uma mensagem de texto foi recebida. Continuo olhando para o teto tentando voltar aos meus pensamentos mas não consigo: é meia noite, quem está enviando mensagens para ele a essa hora da noite?
Alcanço o celular e de repente fico nervosa, minhas mãos tremem e sinto ondas alternadas de calor e frio. É a Raquel. Quando termino de ler o que ela escreveu não consigo raciocinar e percebo que estou respirando rápido, como se tivesse acabado de correr quilômetros. Oi lindinho! O que você está fazendo? Eu estou assistindo um filme e lembrei de como você estava lindo na quarta. Muitos beijos.
Quarta-feira. O dia em que ele não ligou o celular. B-a-s-t-a-r-d-o. Apago a mensagem e coloco o celular de volta no lugar. Enrolo um lençol no meu corpo, pego o meu celular e vou até a sala, fecho a porta e disco o número do Paulo.

- Paulo? É a Juliana.
- Oi gatona. Estava pensando em você. – “sei” penso. Porque os homens se sentem obrigados a contar esse tipo de mentira? Canalhas. Todos eles. – Estou com saudades.
- Eu também. Quando você volta para Brasília?
- Você não vai acreditar: minha viagem foi cancelada e minha noiva viajou. Estou tão solitário...
- Que tal eu passar aí amanhã? – pergunto com lágrimas nos olhos. O Roberto é um Bastardo de Marca Maior e merece todo o sofrimento do mundo. Mentiroso. Homem. – A gente pode tomar uns drinques e colocar o assunto em dia.
- E o seu namorado? – ele pergunta bem humorado. – Será que ele vai gostar?
- Tanto quanto sua noiva. Eu não conto para ela e você não conta para ele.
- Combinado. Passa aqui depois do trabalho.

Desligo o telefone e choro. Choro por mim, pelo Roberto, por tudo que tivemos, pela esperança que tinha de que as coisas mudariam, pelo final do amor que sinto por ele, pela idiota que fui. Respiro fundo várias vezes e tento repetir frases budistas mas elas não me acalmam. A única coisa que me acalma é a certeza que amanhã o Bastardo do Roberto vai levar o troco à altura. Enxugo meu rosto com o lençol e volto para o quarto, onde o Roberto já está.

- Onde você estava amor?
- Bebendo água. – respondo me esforçando para soar feliz. Dou um beijo nele e sinto vontade de enfiar um tapa no rosto dele. – Depois dessa maratona, tenho que me hidratar.
- Você estava chorando? – ele passa a mão no meu rosto.
- TPM amor, só isso.

Despeço-me do Roberto no dia seguinte às sete da noite e combinamos de passarmos o domingo juntos, mas hoje ele quer “sair com os amigos”. Sei. Quer trepar com a Girafa Anoréxica, isso sim. Bastardo.
Vou para a casa do Paulo diretamente e o nervosismo que sinto vai se apaziguando a cada vez que lembro que nesse momento o Roberto está na cama com a Raquel, acreditando que não desconfio de nada. O Paulo abre a porta e quando o vejo todas minhas perguntas somem. Estou fazendo a coisa certa. Entro na sala e a porta se fecha no momento em que ele beija minha nuca.

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Continuação capítulo 4 e começo do capítulo 5 [13 Oct 2005|05:00pm]
[ mood | relaxed ]
[ music | Jack Black - I wanna fuck you ]

Duas semanas depois do dia dos namorados o Roberto e eu combinamos de passar um final-de-semana em um hotel fazenda afastado da cidade, super romântico. A cama king size é coberta por edredons macios e degustamos vinho todas as noites. Tomamos banho de banheira juntos à luz de velas, andamos a cavalo, nadamos na piscina, aproveitamos a sauna (aliás, transamos na sauna) e infelizmente hoje é nossa última noite na pousada. Após mais uma sessão maravilhosa de sexo, o Roberto vai tomar banho e fico deitada olhando para o teto, perdidamente apaixonada e exausta porém meu devaneio é interrompido pelo toque do telefone dele.
Ignoro a maquineta e ligo a televisão, procurando algum programa relativamente interessante e o celular continua tocando. Alcanço o celular, para entregá-lo ao Roberto e acidentalmente olho o visor: é a Raquel. Não acredito. Volto correndo para a cama, coloco o telefone em cima da mesa de cabeceira e tento me concentrar no filme. O Roberto sai do banho, alerto-o sobre as chamadas não atendidas e ele olha o celular.

- Quem era amor? Algo importante?
- Não, nada importante. – Ele me dá um beijo na testa.
- Quem era?
- A Raquel. – ele responde com naturalidade, “a Raquel meu amor, minha amiga de infância”. - Não fica encanada minha linda, não vou falar com ela.
- Eu? Encanada? Que nada! – mordo meus lábios, olho para baixo e pergunto – Amor, você ficou com a Raquel enquanto estávamos namorando?
- Claro que não. – o Roberto me abraça e beija a ponta do meu nariz. - Te falei que tudo ia ser diferente não falei?
- Ãh... Antes de darmos um tempo. – ele fica calado e me beija. – Ficaram?
- Jú, para que essa conversa agora? Aqui?
- Responde amor. – perguntei sem medo, para tirar isso da minha cabeça de uma vez por todas mas agora estou em pânico.
- Uma vez, foi só um beijo, não transamos. Me arrependi na mesma hora e me senti um saco de lixo tóxico. Não te contei porque sabia que iria te magoar e não significou nada para mim. Só estou te contando porque estou disposto a ser diferente, estou disposto a fazer o que for possível por nós dois.

Engraçado, imaginei essa cena várias vezes e invariavelmente eu jogava um vaso na cabeça do Roberto e mandava ele me esquecer, mas estou calma, totalmente calma. Não sinto vontade de arrancar os testículos dele, nem de atear fogo no carro dele ou de cortar os cabelos da Raquel na máquina zero. Estou calmíssima, como nunca estive na minha vida, nem chorando estou. Não digo nada e nem ele, o silêncio do quarto fica ensurdecedor aos poucos.

- Jú... Fala alguma coisa.
- O que você espera que eu diga?
- Que me perdoa, que entende que foi bobagem, que está feliz por eu ter sido sincero.

Típico raciocínio masculino: posso fazer a besteira que for desde que seja SINCERO porque serei automaticamente desculpado.
Não estou mais calma, estou fula da vida; ele me trai e ainda quer que aplauda a honestidade dele. Penso nos telefonemas do Paulo que ignorei nessas semanas, em todos os homens que me deram mole enquanto namorava o Roberto, na minha ingenuidade de achar que ele é confiável.

- Como vou te perdoar por uma coisa pela qual você não pediu desculpas? – minha voz continua calma mas estou fervendo por dentro. Quero asfixiá-lo com um travesseiro. – Você acha que só porque me contou tenho que esquecer? Se você fosse esse exemplo de honestidade teria me contado espontaneamente.
- Jú, presta atenção: foi só um beijo, não teve significado nenhum para mim. Desculpa. Nunca mais faço algo parecido. Não é você que vive falando que as pessoas são honesta na grande maioria das vezes por egoísmo?
- E daí?
- Que interesse eu teria em te contar? Não teve importância nenhuma, não gosto da Raquel, sou apaixonado por você e se eu contasse te perderia. Seria injusto te magoar porque estava com a consciência pesada.
Droga. Tenho que admitir que ele está certo. Sim, é verdade, na minha opinião as pessoas só são sinceras por motivos egoístas e não altruístas, no entanto, a minha raiva só aumenta, ele me fez de trouxa no final das contas. Tenho três opções:

a) sair correndo daqui sem antes dar um belo chute no pinto dele;
b) levar em consideração que ele falou a verdade e está demonstrando que quer ser um namorado diferente;
c) fazer de conta que levei em consideração que ele falou a verdade e está demonstrando que quer ser um namorado diferente e me vingar.

Opto pela c).
Esboço uma expressão triste porém corajosa (uma verdadeira mártir), tomo cuidado para não responder rápido demais, tenho que convencê-lo.
- Roberto, estou morta de ódio de você. Não importa se agora você está disposto a ser diferente, que me contou a verdade. O que você fez não tem justificativa. Você colocou tudo que tínhamos a perder por um beijo. – ele abre a boca para falar alguma coisa mas o interrompo. – Porém estou disposta a deixar você me provar que mudou, que nunca mais vai me fazer de trouxa.
- Que bom minha linda. Eu te amo muito.

Bom, não foi tão ruim assim, foi? Parece que não, pois ele tenta me beijar e deixo, deixo ele beijar meu corpo, transar comigo e não sinto nada além de uma profunda indiferença, estou assistindo ao longe a cena, não sou eu que estou gemendo nessa cama. Penso na nossa comemoração do dia dos namorados, do desespero que fiquei quando ele me pediu um tempo de boca cheia, dos planos que fizemos e sorrio. Isso vai ter volta. Pode ter certeza Roberto.



Capítulo 5

Quase todas as pessoas que presenciam uma tragédia descrevem o que sentiram como se de repente o tempo parasse e tudo acontecesse em câmera lenta. Sinto-me assim desde da noite da Revelação. Fiz amor com o Roberto, acordamos, tomamos café da manhã, voltei para a casa, escolhi uma roupa para o trabalho, assisti uma reunião com a dona Lurdes e aqui estou tentando escrever um relatório sobre o Timor Leste e sinto como se estivesse me assistindo fazer tudo isso. A vida continua a mesma apenas mais lenta.
Pela sétima vez coloco o telefone no gancho após digitar o número do Paulo e tento me concentrar na tela do computador que está à minha frente. “A situação dos presos políticos do Timor Leste...”.
Como posso ser superficial a ponto de me preocupar com uma vingança sentimental quando pessoas estão sendo mortas e torturadas do outro lado do mundo? O melhor que faço é me concentrar no trabalho e fazer o possível para esquecer que o Roberto beijou a Girafa Anoréxica e acreditar que tudo vai dar certo entre nós dois. Afinal, sou uma adulta madura e sei bem que um beijo não significa algo necessariamente algo.

Sei bem que transar com outro homem não vai mudar nada do que aconteceu, por mais que seja uma transa deliciosa que dure a noite toda. Com direito a vibradores, velas, quarto de luxo em um motel, calda de chocolate, banheira. Pare com essas fantasias menina! Se você não confia mais no Roberto termine logo esse namoro. Traí-lo só vai fazer você se sentir mal. Moralista como sempre essa minha Voz Interior. Não seria exatamente uma traição, afinal pela lógica do Roberto, se não significar nada para mim e eu for sincera depois, fica tudo certo.
Vou ligar para o Paulo e ponto final. Estou discando o número dele quando meu celular toca: é o Roberto. Droga. Desligo o telefone e atendo o celular.

- Oi meu amor! – ele fala. – Estava pensando em você.
- Ãh... Eu também. – não estou mentindo. Estou pensando nele. Nele, na Girafa Anoréxica e no Paulo.
- Que bom minha linda. Quer jantar comigo hoje?
- Ãh... Sabe o que é Roberto? Tenho muito trabalho para fazer e devo sair tarde.
- Que pena. Dorme comigo então?
- Pode ser.
- Então até mais tarde.

Nos despedimos e volto a olhar vagamente para a tela do computador, respiro fundo para aliviar minha frustração e passo as mãos nos meus cabelos. Quem estou tentando enganar? Não vou conseguir trair o Roberto. Não que eu nunca tenha traído um namorado antes, mas com ele é diferente. Sei que ele merece mas essa não é a questão; ele está tão diferente, tão carinhoso que torna impossível fazer algo para magoá-lo. Olho para o relógio, são cinco e meia da tarde. Disco o número do Fernando, depois de cinco toques ele atende.

- Oi Jú, beleza?
- Tudo bom Fernando. Você tem planos para mais tarde?
- Estava pensando em tomar um chopp para relaxar. Segundas-feiras são horríveis por aqui.

O Fernando trabalha há um ano em um escritório de decoração como arquiteto. No começo ele era muito caçoado pelos amigos, mas depois que eles perceberam que muitas mulheres se interessavam por decoração e tonalidades de cortinas, pararam. Muitas vezes me pergunto se ele se formou em arquitetura apenas para conhecer mulheres. Não me surpreenderia nem um pouco. Aos dezoito anos o Fernando conseguiu ser caixa em uma loja de lingerie e bom... Acho que não preciso completar essa frase. Os homens se submetem a cada coisa por uma trepada, é inacreditável.

- Ótimo, porque eu estava querendo te chamar para tomar uns drinques. Tenho algumas novidades para te contar.
- Combinado então. Me liga quando você sair.

Sentindo-me mais animada termino meu relatório em quarenta minutos e saio leve como uma pluma do meu cubículo. Vou conversar com o Fernando e ele vai me dar uma solução brilhante para os meus problemas e tudo vai ficar bem.

Nos encontramos no mesmo bar em que conheci o Paulo. Peço uma capissaquê de abacaxi, o Fernando um hi-fi e uma porção de batatas fritas e o ouço relatar o final-de-semana, onde foi, com quem foi, com quantas mulheres transou e as desculpas que ele está dando para não se encontrar com elas. Os minutos passam e não posso mais evitar o assunto, tenho que contar o que aconteceu para o Fernando, ele vai entender.

- Fernando, tenho uma coisa muito séria para te contar. – olho nos olhos dele e paro de sorrir. Tomo mais um gole da minha bebida e respiro lentamente. – O Roberto. Ele... ãh... Bem...
- Tem uma DST?
- Não! – não consigo segurar uma gargalhada. – Ele... ãh... – Juntando toda a coragem que tenho, confesso a verdade. – Beijou aquela tal de Raquel quando estávamos juntos.

Fico esperando por um grito de indignação seguido de uma chuva de palavrões mas nenhuma das duas coisas acontece. Ele simplesmente apanha quatro batatas fritas e as enfia na boca sem muita educação ou cerimônia.

- E daí?
- Como assim “e daí”? Ele beijou outra mulher. Enquanto namorava comigo. – completo, falando devagar, como se estivesse ensinando uma criança as letras do alfabeto.
- Ele transou com ela?
- Não.
- Certo. Você conhecia a Raquel naquela época? – ele me pergunta com um ar inocente, genuinamente intrigado.
- Não.
- Claro. – ele responde e se cala, pensativo. - Ele foi descuidado e guardou uma calcinha dela no porta-luvas do carro?
- Não! – dessa vez controlo minha vontade de rir. Esse é um assunto de extrema importância.
- Então qual é o problema?
- Você está falando sério? – respondo arregalando meus olhos.
- Jú, entende uma coisa: homens são diferentes de mulheres. É triste para vocês mas essa é a realidade nua e crua. Sexo e amor são duas coisas muito diferentes para nós. Se ele não comeu a menina, não esfregou na sua cara o que ele fez e nem foi com alguma amiga ou conhecida sua, você deu sorte. – ele engole mais cinco batatas. – Ele não fez nada de mais.
- Fernando, essa foi a moral mais porcamente machista que ouvi. – respondo quase gritando. – Você realmente vai defender o que ele fez?
- Não estou defendendo, só não estou condenando. Ele te contou, pediu desculpas, o que mais você quer que ele faça?
- Não sei! – grito, irritada. Percebo que o Fernando tem uma ponta de razão: o Roberto pisou na bola mas fez tudo que podia para consertar o erro. – A impressão que tenho é que ele saiu ileso. Eu quero que ele sinta a mesma raiva que eu.
- Você está querendo se pegar com outro cara? – ele me pergunta calmamente, levando o copo até os lábios.
- Tentei ligar várias vezes para o Paulo. - Sinto meu rosto se aquecendo de vergonha. - mas não tive coragem de falar com ele.
- Careta. – o Fernando coloca o copo sobre a mesa e passa a mão no lóbulo lentamente. Acho que ele não percebe que faz isso nem como é sensual. Ele é o tipo de homem que faz tudo devagar, no tempo dele e acho isso irresistível.
- Vamos mudar de assunto por favor?

Uma hora depois estou no meu carro indo para a casa do Roberto analisando novamente meu plano de vingança. No fundo sei que o Fernando tem razão, não vou me sentir melhor se transar com o Paulo, provavelmente vou me sentir culpada e envergonhada. Eu teria que ser muito fria para marcar um encontro com um homem que não vejo há semanas, ter uma noite de sexo com o único objetivo de magoar meu namorado. Sei que estamos no século vinte e um, que as mulheres devem ser independentes e não se prender a um homem que a trai, mas o que é um beijo? Sobretudo, o que é um beijo comparado com uma transa?

Rodo o estacionamento do prédio do Roberto duas vezes antes de encontrar uma vaga e me dirijo à portaria. Aceno rapidamente para o porteiro, empurro a porta de vidro, chamo o elevador e retoco a maquiagem na frente do espelho enquanto espero. Quem está errada sou eu e não ele, concluo. Ele me pediu desculpas e eu aceitei. Tive a escolha entre terminar tudo e procurar outra pessoa ou tentar esquecer o que ele me contou e ser feliz. Bastardo. Não só ele beijou a Girafa Anoréxica como ainda deixou a escolha mais difícil nas minhas mãos. O Roberto inverteu a situação e ao invés de ser reconhecido como um Namorado Traidor ele se tornou um Namorado Sincero e Arrependido. Bastardo.

O Fernando está certo: ficar com o Paulo não vai me fazer bem algum. No entanto, não é esse meu objetivo. Não quero me sentir bem, quero que o Roberto se sinta mal. Disco o número do Paulo

- Paulo?
- Linda, faz tempo que não conversamos. – ele responde, sussurrando.
- Pois é, estou com saudades. – minha voz Tigresa voltou. – Que tal jantarmos amanhã?
- Não posso, vou viajar amanhã e volto daqui quinze dias. Quando voltar te ligo.
- Está bem.

Guardo meu celular e aperto o botão do quarto andar e me surpreendo: não me sinto culpada. Toco a campainha e beijo o Roberto com paixão e saudades. É só sexo com o Paulo, não vai significar nada para mim, logo não vai significar nada para o Roberto.


Meu rosto está encostado na parede de azulejos escuros e a água quente escorre pelo meu corpo assim como as mãos do Roberto. As mãos dele estão nos meus seios, na minha cintura, nos meus ombros, no meu corpo inteiro ao mesmo tempo.
Ele está dentro de mim, agora estamos de frente um para o outro, minhas pernas entrelaçadas nos quadris do Roberto, meus braços se agarram aos ombros largos e fortes dele. O jato de água do chuveiro está na potência máxima, o banheiro está totalmente esfumaçado, o espelho embaçado os cheiros de sabonete, condicionador e sexo se misturam no ar. Atingimos o clímax juntos e ofegante, ele apóia a cabeça no meu ombro sem me soltar, ainda dentro do meu corpo.
- Juliana?
A voz da dona Lurdes me traz de volta à realidade. Esse é o maior problema de transar de manhã: tenho “flashbacks” da transa durante o resto do dia. Percebendo que devo ter passado os últimos cinco minutos olhando para o grampeador, pisco duas vezes e me concentro.

- Sim senhora Lurdes?
- Vamos viajar amanhã para o Rio de Janeiro para o seminário internacional das organizações humanitárias. Marque as passagens, os hotéis e me envie um correio eletrônico com todas as informações em vinte minutos. Aqui está a lista dos participantes e os horários das conferências.
- Sim senhora. – respondo alcançando o envelope pardo. Vaca. – Logo terei todas as informações.

Estou cada dia mais frustrada com esse emprego. Quando fui contratada tinha sonhos que envolviam reuniões com chefes de estados, conversas inflamadas sobre a igualdade entre os seres humanos, jantares com embaixadores e eventuais viagens internacionais. Imagino que tenha sido ambição exagerada da minha parte, porém passar dias traduzindo documentos legais e abaixo assinados sob o escrutínio de uma Vaca Tirana também já é demais. Me formei com louvor na universidade, falo sete idiomas e ao invés de salvar o mundo estou reduzida a marcar vôos e reservar quartos em hotéis nos quais não colocarei meus lindos pés tão cedo. Se eu soubesse que seria assim teria começado meu mestrado e passado mais dois anos estudando às custas dos meus pais.
Abro o envelope tristemente, como se este pesasse cinco toneladas, retiro a folha e passo rapidamente meus olhos pela lista de nomes, e de repente, meu coração pula. Meu nome está na lista da equipe da Vaca. Releio a frase cinco vezes antes de acreditar. Eu vou ao Rio de Janeiro! Sinto vontade de jogar os papéis pelos ares, bater os calcanhares e dançar, como em um musical dos anos cinqüenta.
Acesso vários sites de busca e pesquiso diferentes diárias e localizações de hotéis, reservo passagens para todos e em quinze minutos mando um “correio eletrônico” para a dona Lurdes com todos os dados. Coloco meu celular no bolso e vou até o banheiro, de onde ligo para a Tatiana.

- Amiga, você não imagina o que me aconteceu hoje!
- A Lurdes mandou você limpar as privadas com uma escova de dentes? – ouço ao fundo toques de telefone e música eletrônica. A Tatiana é administradora de um restaurante moderninho e descoladinho e passa as manhãs contando o número de caixas de azeitonas disponíveis.
- Eu vou viajar para o Rio de Janeiro para seminário internacional das organizações humanitárias com a equipe da dona Lurdes! – respondo tentando não gritar de felicidade. – Três dias inteiros dedicados ao combate das injustiças sociais e eu estarei lá!
- Parabéns!

Desligo o telefone e sinto um pequeno vazio; eu realmente quero compartilhar essa boa noticia com o Roberto, por mais que relute em admitir. “Amigas de verdade são valiosas e difíceis de encontrar”, “namorados vem e vão, amigos são para sempre”. Eu sei, eu sei! Conheço a Tatiana a muito mais tempo do que o Roberto, mas existem coisas que só dá para dividir com um namorado, independente do que essas frases pré-fabricadas digam. Disco o número do Roberto e meu coração é inconvenientemente tomado por uma onda de afeto quando ouço a voz dele. Conto as boas novas e passamos alguns minutos no telefone discutindo a diferença que esse evento fará na minha carreira, ele me parabeniza e diz que me ama. Desligo o telefone me sentindo completa.

Acordo as seis da manhã no dia seguinte e em uma hora estou pronta. Chamo uma táxi e vou até o aeroporto, sou a primeira a chegar. Aos poucos todos chegam e embarcamos no vôo das oito horas em direção ao Rio de Janeiro, sem escalas.
Ao chegarmos uma van está a nossa espera (olho discretamente para minha chefe psicótica, esperando um elogio pela minha excelente logística. Em vão). Garanto um lugar na janela e observo a paisagem carioca desfilando na frente dos meus olhos à medida que a van acelera. Admiro os prédios do centro, as árvores, as pessoas andando e todas as praias.
Marcamos o horário do almoço e nos dirigimos aos nossos quartos respectivos. Desde criança sempre gostei de ficar hospedada em hotéis. Adoro o cheiro dos lençóis, os sabonetes em miniatura dos banheiros e, principalmente, de poder colocar o aviso de “não perturbar” na porta.
O meu quarto fica no oitavo andar, a cama é de casal e está coberta por um edredom branco, os travesseiros são fofos e altos. A setenta centímetros da cama, um móvel moderno de madeira escura serve de apoio para uma televisão prateada de vinte e quatro polegadas. Ao lado do móvel, uma escrivaninha de mesma cor, um abajur prata e branco. Emcima da mesa de cabeceira se encontra um telefone, um abajur e o controle remoto da televisão.
Abro o mini-bar para checar o conteúdo: refrigerantes, água mineral gasosa, champanhe, cerveja, uísque e energético. Uma cesta com chocolates e amendoim está emcima da geladeirinha.
O banheiro é imenso, inteiramente de azulejos pretos. Duas pias brancas ficam em frente a um espelho enorme, na qual posso me ver por inteira. O boxe é de vidro fosco, o boxe é composto por dois chuveiros redondos brancos. Dois roupões brancos estão pendurados atrás da porta e quatro toalhas (também brancas) estão cuidadosamente dobradas em uma pequena prateleira.
Após a inspeção das condições do quarto, ligo a televisão para assistir algum canal de notícias. Sou uma adulta, uma profissional viajando a trabalho. Troco o canal de notícias pela MTV, a Beyoncé aparece rebolando e cantando, subo na cama, dando pulos e gritinhos de alegria. Durante os três próximos dias estarei nessa cidade maravilhosa por conta própria, conhecendo pessoas importantes para minha carreira. Dou um pulo final e me deito, coloco os braços debaixo da cabeça e sorrio.

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Capítulo 4 [12 Oct 2005|10:20pm]
[ mood | hot ]
[ music | Ben Harper - walk away ]

Uma fraca luz esverdeada ilumina o cômodo, as paredes são de metal e estão enferrujadas, a mobília se resume a uma mesa de madeira velha e usada e uma cadeira sobre a qual o Roberto está amarrado por cordas espessas. Contorno a cadeira, passando o chicote nas minhas coxas, ajusto meu quepe e estalo o chicote entre as pernas dele.

- Você pode confessar por bem ou por mal. Prefiro a segunda opção, mas se você tem algum amor pelos seus testículos, melhor que seja por bem.
- Eu juro, só conversamos!
- Conta outra rapaz. – de onde saiu esse sotaque alemão? E esse uniforme da gestapo? – Vi aquela Girafa Mal Nutrida entrando na sua portaria e saindo duas horas depois. Que assunto longo é esse? Seu pênis que não era, seria conversado em quinze minutos. – adiciono com maldade.
- Meu pênis é grande! – Roberto se descontrola, uma veia aparece em seu pescoço. – Você mesma já me falou isso!
- Não acredite em tudo que ouve por aí rapaz. Já que você não quer confessar por bem, terá que ser por mal.

Um anão barbudo trajando um uniforme médico estende uma bandeja cirúrgica, escolho uma broca automática. A levanto na altura dos meus olhos e ela começa a rodar. Os olhos do Roberto se abrem em desespero e a testa dele fica cada vez mais suada, ele grita mas ninguém pode ouvi-lo.

- Isso tudo é muito engraçadinho Jú, mas infelizmente você não pode seqüestrar o Roberto, prendê-lo em um cargueiro nazista e remover os testículos dele com a ajuda de um anão. – O Fernando passa a mão nos meus cabelos e segura minha mão. – Mas você pode arranhar o carro dele.

Depois de ficar de tocaia durante duas humilhantes horas no estacionamento do prédio do Roberto vim direto para a casa do Fernando e estou me sentindo bem mais animada. Ele está sendo estranhamente carinhoso, não fez nenhuma brincadeira sarcástica e ainda falou que devo conversar com o Roberto antes de tirar qualquer conclusão precipitada. Talvez a Girafa Anoréxica tenha aparecido sem avisar e eles acabaram conversando porque o Roberto não queria sumir sem dar notícias. Não que a idéia me agrade, mas me desagrada menos do que a idéia dos dois transando, portanto vou dar o benefício da dúvida a ele até conversarmos.
Admito que se não fosse pelo Fernando estaria histérica e que quando cheguei tinha desejos homicidas, mas depois de duas horas conversando com a cabeça no colo dele, sentindo ele passando os dedos nos meus cabelos, estou bem melhor. Vai dar tudo certo e não tenho motivos para desconfiar do meu namorado. Ainda.
Despeço-me do Fernando e volto para o aconchego do meu lar. A Tatiana não está; o que é incomum, torço para que ela esteja tomando um café com o gatinho da academia. Antes de entrar no banho o meu telefone toca, é o Roberto. Penso em não atender mas desisto, afinal, ainda não sei se ele é culpado de alguma coisa.

- Oi.
- Oi Jú, desculpa ter sido grosso quando você passou aqui em casa.
- Tudo bem. – “você também poderia implorar meu perdão por ter passado duas horas com a Raquel depois me jogar para fora do apartamento”. – Está mais descansado?
- Sim. Queria te desejar uma boa noite.
- Ah. Sim. Claro. Boa noite. – cruzo meus dedos e torço para que ele comente sobre a Raquel. – Durma bem.
- Você também. Jú... – ele hesita e posso sentir os neurônios dele funcionando. – Preciso te falar uma coisa.
- O quê? – minhas mãos estão suadas mas preciso ouvir “transei com a Girafa cinco minutos depois de te ver”, vai confessa seu Bastardo.
- A Raquel apareceu aqui em casa um pouco depois de você ir embora e ela tanto insistiu que conversei com ela. Contei que estamos juntos novamente.
- Ãh... – Sento na privada e mal posso acreditar no alívio que estou sentindo. – Só isso?
- Ela ficou bastante chateada e fui firme, avisei que não poderíamos mais nos falar porque você me pediu. Satisfeita?
- Eu sim. Você não? – como assim “porque você me pediu”? Precisava contar isso para ela? Ele tinha que fazer parecer iniciativa dele. Homens não entendem nada.
- Claro. Era só isso, boa noite.
- Boa noite.

O Fernando tinha razão, eu tenho que parar de tirar conclusões precipitadas. Que alívio, ele foi sincero. Se ele foi sincero sobre isso também seria sobre uma possível ficada entre ele e a Raquel, porém não me interessa mais, tenho certeza que não aconteceu nada. Assunto encerrado, caso arquivado.
Os dias passam, se transformam em semanas e tudo continua ótimo entre nós, mal consigo acreditar! O Roberto me trata como uma princesa e espero o dia dos namorados com uma ansiedade adolescente, que chega rápido e devagar demais como os aniversários, férias na praia, lançamento de uma nova coleção da ZARA e o natal.
Faço planos de sair um pouco mais cedo do trabalho e passar no supermercado para comprar os ingredientes de um jantar romântico-delicioso-afrodisíaco, cozinhar, tomar banho e estar incrivelmente sensual. Tudo isso em três horas. Tarefa árdua para mulheres sem sal, tarefa simples para uma mulher moderna e versátil como eu.

Conto os segundos no meu relógio e assim que o ponteiro das horas se fixa no número seis pego minha bolsa, meu casaco e saio quase correndo. Claro que avisei a Lurdes que sairia antes do horário normal e ela foi compreensiva, então não estou fugindo, apenas garantindo que ela não vai descobrir que precisa que mande um correio eletrônico, tire alguma fotocópia ou descubra a cura do câncer. Com a mão na porta já posso ouvir os cantos da vitória, os fogos de artifício de comemoração, entretanto tudo vai por água abaixo. A voz que mais detesto no mundo (e no momento) chama meu nome.
- Patrícia?
- Sim senhora Lurdes? – demoro alguns segundos para transformar minha careta de nojo e irritação em um sorriso profissional. – Posso ajudar?
- Na verdade sim. Não encontro aquele relatório que te pedi sobre trabalho infantil nas minas de carvão. Onde está?
- Em cima da mesa, coloquei essa manhã. – tenho uma leve noção de que meu sorriso falso está extenso demais e diminuo um pouco. – Estava dentro de uma pasta vermelha.
- É verdade, lembro-me. – PORQUE ela fala “lembro-me” se todos os outros brasileiros falam “me lembro”? Porque minha chefe é uma pessoa insuportável? –Antes que você saia verifique uma tradução que recebi. Mas não se preocupe, é coisa rápida.
- Claro. – olho meu relógio enfaticamente. Vaca.
- Afinal você tem um compromisso, como dizer, inadiável não é?
- Ãh... Sim. Inadiável. – Vaca gorda. – É o aniversário da minha avó, ela vai comemorar noventa e seis anos.
- Não diga. – andamos até o escritório dela. – Bom, ela esperou noventa e seis anos, uma horinha a mais não vai incomodar não é?
- Imagino que não. – Vaca gorda e feia. – Só espero que ela agüente ficar esse tempo extra sem o bujão de oxigênio. Eu sou a encarregada de levá-lo.
- Bom, se é urgente assim... – será possível que ela vai me liberar? – acho bom você se concentrar bastante. Aqui está, quando terminar mande para este endereço. – Ela me entrega um post it amarelo. – Bom trabalho.

Ela pega a bolsa dela e simplesmente vai embora. Vaca gorda, feia, burra e fedida.
Sem pânico, são seis e dez, posso terminar isso em vinte minutos, afinal o que são setenta e sete páginas? O meu emprego é muito mais importante do que uma data meramente comercial sem nenhum significado real, é essencial impressionar minha superior por mais psicótica que ela seja. Quero dizer, por mais exigente que ela seja.
Leio as infinitas e tediosas páginas em italiano, grifo algumas palavras e expressões, reescrevo outras tentando me animar, é a minha reputação profissional que está em jogo e certamente todo esse sacrifício será recompensado. Um dia eu que serei importante, delegarei tarefas e com certeza jamais serei uma Vaca Desumana e Pedante. Vaca. Termino a septuagésima sétima página aos gritos, coloco tudo em um envelope e o entrego para o Office boy. São sete e quinze. Vaca. Vaca. Vaca. Vaca.

Entro às pressas no supermercado, tiro a lista de compras da bolsa e tento me acalmar pensando na noite maravilhosa que terei, planejo posições sexuais enquanto escolho filés de salmão e alcaparras frescas. Passei no sex shop ontem e comprei a parafernália de praxe: loções para massagem, lubrificantes, creme comestível sabor morango. Ah, e um mini-vibrador acionado a distância por controle remoto.
Pago tudo, ultrapasso todos os limites de velocidade e chego em casa em dez minutos. São oito horas, marquei com o Roberto às nove, em outras palavras: tenho uma hora para aprender a ligar o forno e virar uma deusa sexy do amor.

Acendo o forno para que ele esquente enquanto tomo banho, lavo meus cabelos com meu revolucionário xampu que custou quarenta e cinco reais, escovo meus dentes, entro na cozinha com uma toalha enrolada na cabeça e corto os filés de peixe, ligo para a Tatiana para confirmar que ela vai dormir fora e tudo está certo, preparo o molho, seco o cabelo, unto a fôrma, asso as batatas no vapor, me maqueio, ponho a mesa, tiro o salmão do forno, coloco minha lingerie e vestido, me calço, encaixo o vibrador na minha calcinha e estou pronta às nove horas e três minutos e às nove horas e cinco minutos meu celular toca; é o Paulo.

- Oi Paulo. – não acredito que ele teve a cara de pau de me ligar depois de um mês e meio sumido.
- Oi gatinha. – Ele está obviamente bêbado. – Quer companhia hoje?
- Não, vou jantar com meu namorado.
- Já me trocou por outro?
- Vai tomar uma xícara de café e depois conversamos.

Desligo o telefone e bufo. Tem homem muito cafajeste à solta por aí. Esse cachorro está traindo a mulher, transa comigo e passa semanas sem dar as caras e acha que pode me ligar a qualquer hora que vou dar para ele. Ainda bem que tenho um Namorado Exemplar que me ama e me respeita.
Aliás, onde ele foi parar? Já são nove e dez, o salmão vai ficar frio desse jeito e todo meu esforço terá sido em vão. Acho bom para esse Bastardo de Marca Maior que ele não esteja pensando em me dar um bolo senão... Senão... Ah! A campainha.
Abro a porta e tapo minha boca com uma mão, o Roberto está gostosíssimo usando uma blusa social, segurando um buquê de rosas imenso em uma mão e escondendo a outra atrás das costas.
- Juliana, você está maravilhosa. – Ele me entrega as rosas e beija meu pescoço várias vezes. – Esse vestido é novo?
- Comprei para usar hoje.
- Adorei.
- Você ainda não viu o que tem por baixo dele. – Coloco o buquê em cima da mesa e passo minhas mãos pelos braços dele e beijo a nuca dele. – Espero que você goste tanto quanto do vestido.
- Posso dar uma olhada? – ele levanta a barra do vestido com as mãos passando os lábios no meu pescoço. – Prometo que só vou olhar.
O Roberto me beija suavemente, sinto apenas a ponta dos lábios dele encostando-se à minha pele e me arrepio, antes o pescoço, depois a nuca, a orelha, os ombros. Ele fica atrás de mim e abre o zíper do vestido, levanto meus braços e ele o puxa. Ele recomeça a me beijar levemente, minhas costas inteiras, minha bunda, minhas coxas, ele está ajoelhado e me pede para virar, beija minha calcinha, minha barriga, cintura, seios, braços, pescoço e me dá um longo beijo na boca.

- Adorei seu sutiã e sua calcinha. Adorei tanto que vou ter que tirar.
- Espera, tenho uma surpresa para você. – alcanço a caixinha preta onde coloquei o controle do vibrador e entrego para ele. Ele abre e me olha sem entender. O controle é pequeno, tem cinco centímetros, é retangular e tem quatro botões, cada um numerado de um a quatro.
- O que é isso?
- Aperta qualquer botão e descobre. – Coloco a mão dele entre minhas pernas, emcima do vibrador. Ele sente a vibração e sorri.
- Você é demais.

Sentado no sofá ele me pede para ficar em pé na frente dele e acariciar meu seios. Obedeço, estou muito excitada, quero que ele use o vibrador para me fazer gozar quantas vezes quiser. Ele brinca com os botões, variando a potência sem seqüência lógica, me fazendo gemer, mexer meus quadris, passar as mãos pelo meu corpo todo, gritar a cada orgasmo.
- Vem cá minha linda.
Me aproximo e fico em pé na frente dele, sentindo as carícias que ele faz na minha bunda enquanto ele passa uma mão por cima da calça. Sento no colo dele e desabotôo a camisa dele devagar, beijando cada centímetro de pele que aparece, ele continua manuseando o controle. De joelhos, tiro a calça dele, a cueca e lambo a cabeça do pau dele com vontade, devagar, olhando para o Roberto. Abro minha boca e a deixo deslizar por inteiro, chupo dessa forma durante um tempo depois volto para a cabeça. Gozo inúmeras vezes, ele não solta o controle de jeito nenhum. Me levanto, coloco um cd do Usher no aparelho de som e danço na frente dele, até ele se levantar e tirar minha lingerie. Estamos encostados na parede e a mão dele está no meu clitóris, dentro de mim, alternando, me deixando molhada, aperto os ombros dele, levanto uma perna e controlo meus gritos. Ele me levanta, passo minhas duas pernas em volta da cintura dele e o sinto me comendo, querendo enfiar mais, querendo encostar em todo o meu corpo ao mesmo tempo. Suas mãos estão agarradas à minha bunda e às minhas aos ombros dele. Nossos corpos se movimentam juntos, nossos sussurros ficam mais altos e viram gritos de êxtase ao mesmo tempo.

- Eu te amo, você é maravilhosa.
- Também te amo, muito.

Ofegantes, vestimos a roupa de baixo e nos sentamos à mesa de jantar, olhamos para a comida fria e levantamos os ombros. Para isso existe a forno a microondas não é mesmo? Jantamos quase pelados, conversando sobre nós dois e os planos para o futuro, viagens, restaurantes, peças, filmes, tudo e nada.
O Roberto trouxe um vinho branco delicioso e depois da segunda garrafa trocamos os presentes. Além do buquê ele me entrega uma caixinha aveludada verde e meu coração pára quando vejo o que está dentro: uma corrente de prata e um pingente com uma pedra azul escura maravilhosa que coloco na hora. Entrego o meu, um palmtop que ele namora toda vez que passa em qualquer loja de eletroeletrônicos. A noite termina com uma garrafa de champanhe e nos deitamos abraçados. Minha avó sempre me falou que nada na vida é perfeito, eu discordo. A felicidade são esses momentos perfeitos em uma vida imperfeita, feitos por pessoas cheias de defeitos que por algum tempo querem ser o melhor que elas conseguem.

Fica difícil voltar à rotina normal depois de uma noite romântica e mágica, mas é o que acontece na vida real. Seria muito melhor se a vida parasse naquele beijo, naquela transa, naquelas palavras como em todos os filmes baratos de amor. Mas no dia seguinte voltamos ao trabalho, às aulas, temos que limpar a cozinha, a maquiagem já desbotou. Mesmo assim vale a pena.

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Continuação capítulo 3 [06 Oct 2005|12:50pm]
[ mood | hot ]
[ music | Ray Charles - hit the road jack ]

Sentamos em um café muito charmoso, com mesinhas de ferro trabalhado, quadros nas paredes, livros em prateleiras, música folk e mpb tocando suavemente. Peço um café mexicano (café e tequila) e a Graziela pede um Martini. Temos a Primeira Conversa de praxe, onde moramos, se temos namorado, como começamos a trabalhar, onde estudamos, quais os planos para o futuro, preferências musicais, praticamente uma entrevista de emprego. As oito e quarenta meu celular toca, é o Roberto. Peço licença à Graziela e atendo.
- Onde você está Jú? A gente não ia conversar?
- Íamos, mas você não ligou, achei que tinha desistido.
- Claro que não. – ele soa irritado. – Você pode vir para cá sim ou não?
- Posso. Daqui uma meia hora estou aí. Tchau. – desligo o telefone quase que na cara dele, feliz por ter mantido a calma e sido fria. Olho para a Graziela. – Desculpa, é meu namorado, estamos dando um tempo e marcamos de conversar hoje. Vamos ter que deixar o resto da conversa para outro dia.
- Tudo bem, sem problemas.

Conversamos mais um pouco, nos despedimos, sigo para a casa do Roberto ensaiando meu discurso mentalmente. “Não é certo você achar que pode se afastar quando acha melhor e voltar quando quiser. Não estou à sua disposição e tem muito homem por aí querendo o que você desprezou”. Poderia até incluir algumas alusões a noites quentes de sexo, e não posso esquecer de forma alguma de perguntar sobre a Raquel, se eles ficaram durante essa semana e se eles ficaram enquanto estávamos juntos. Estou receosa de ouvir uma resposta que vai me entristecer mas prefiro saber a verdade por mais horrível que seja do que ser feita de boba.
Estaciono o carro, peço ao porteiro interfonar para avisar que cheguei ao invés de simplesmente subir, para dar um toque de formalidade à situação. Odeio “dar um tempo” por vários motivos; um dele é a forma indefinida que a relação toma: ainda somos namorados? Podemos ficar com outras pessoas? Ainda posso falar que o amo? Tenho que interfonar antes de subir ou posso ir diretamente ao apartamento? É muito melhor deixar tudo às claras: estamos juntos ou não estamos. Pessoas que pedem tempo são pessoas que querem enrolar antes de tomar uma decisão mais definitiva.

Checo minha maquiagem e roupa no espelho do elevador antes de sair e fico satisfeita com o que vejo: tailleur profissional-porém-feminino com blusa-de-alcinha por baixo (para ele ver que não vou me trocar somente para conversar, não sinto necessidade de impressioná-lo) e lingerie sensual (caso a gente se reconcilie). Toco a campainha e respiro fundo ao sentir uma ponta de nervosismo: é SÓ o Roberto, não o Sultão das Arábias, ele que me pediu para estar aqui. Me forço a pensar no Paulo e fico calma, determinada e fria, sou uma nova mulher.
Minha determinação é levemente abalada quando ele abre a porta e sorri ao me ver; ele está maravilhoso, vestindo uma camiseta que dei para ele de presente de aniversário. Entro e sem jeito dou um beijo na bochecha dele; afinal estender minha mão seria ridículo e um beijo na boca não me parece certo.

Vamos até a sala e sou tomada por lembranças do começo do nosso namoro, de inúmeras sessões de filme, amassos violentos nesse sofá, jantares e algumas brigas. O pior de um final de relacionamento é ter que esquecer, da noite para o dia a intimidade criada.
- Você está linda Jú.
- Obrigada.
- Quer beber alguma coisa?
- Água. Por favor.
- Vou buscar. – ele sai e ouço barulhos na cozinha, ele volta me estendendo um copo. – Pode sentar, é de graça.
- Ah, sim, claro. – pego o copo tomando um cuidado extremo para não encostar na mão dele. - Então, sobre o que você queria conversar comigo?
- Jú, eu estou com saudades. Eu te amo, me desculpa pela forma como me comportei, estava confuso e fiz uma coisa da qual me arrependi no dia seguinte. – ele tenta segurar minha mão mas não deixo.
- Roberto... ãh... Não sei se devo acreditar no que você está falando. Você não pode me dispensar a qualquer hora achando que vou esperar você me chamar de volta. Não estou à sua disposição. – sei que minha voz está trêmula mas apesar disso consigo chegar ao final da minha frase. – Fiquei muito magoada, você nem me ligou para saber como estava.
- Eu queria ligar, mas imaginei que você estivesse com raiva e preferi deixar a poeira baixar. – ele tenta novamente alcançar minha mão e dessa vez deixo. Minha Voz Interior faz um comentário reprovador que ignoro. Meu cérebro recomeça a desligar as funções supérfulas e amoleço um pouco. – Eu te amo Jú.
- O que você propõe? Ainda quer um tempo?
- Não. Quero ficar com você meu amor. – o Roberto se aproxima um pouco mais de mim e posso sentir o perfume que ele está usando. – Quero mudar as coisas ruins que estavam atrapalhando nosso relacionamento e espero que você também queira. Quero que a gente dê certo.
- Eu também quero. – sussurro, olhando para o lado, envergonhada de ter cedido tão facilmente, me perguntando onde está a Tigresa Determinada para enxotar essa Gatinha Apaixonada antes que ela faça besteira. – Eu quis isso desde o começo. Essa idéia ridícula de tempo partiu de você.
- Eu sei. Me desculpa. – ele chega cada vez mais perto e me beija. NÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOO!!!! Sei que minha Voz Interior tem razão de gritar em desolação, mas eu amo o Roberto e ele falou tudo que queria ouvir. Aproveito o beijo, as palavras que ele falou e tento lembrar desse momento, porque até agora está perfeito.
- Roberto, só mais uma coisinha. Você ficou com a Raquel?
- Fiquei.
- Ãh... Quando?
- Sexta. Encontrei com ela em uma boate e acabamos ficando. Ela me disse que encontrou com você em um restaurante.
- É. Encontrou mesmo. Eu detesto essa garota e se você quiser que a gente dê certo vai ter que parar de falar com ela. – é ruim pedir esse tipo de coisa mas agora não é hora de joguinhos. – Não quero mensagens suspeitas, ligações no meio da noite, encontros casuais em festas, nada.
- Combinado. – ele tenta me beijar de novo mas me afasto. – O que foi Jú? A gente não está numa boa?
- Quase. Você promete? Cortar relações Roberto.
- Prometo meu amor.
- Você... ãh... – quero perguntar se ele já ficou com a Vara Pau durante nosso namoro mas não tenho coragem. Não quero saber. Estou sendo covarde, sim, eu sei, mas que se dane. No momento não importa. – Deixa pra lá, não é importante.
Juliana, pela última vez: SAIA DAÍ NESSE INSTANTE. Continuo onde estou e o deixo me abraçar e beijar meu pescoço. Levanto meu rosto e nos beijamos com paixão, fazia muito tempo que não nos beijávamos assim. Ele abre os botões da minha camisa e beija meu colo, meus seios, minha barriga e abre o zíper da minha calça. Nos dirigimos até o sofá, eu sento no colo dele, puxo a blusa dele para cima e fico excitada ao sentir o pau dele ficando duro, roçando em mim entre o pano da calça dele e da minha calcinha, fico com uma vontade louca de arrancar a roupa dele. Ele beija minha nuca, meu pescoço, repetindo que me ama, que me quer e começo a gemer, falo que também o amo, peço que ele tire a roupa. Ele fica nu e me deixa nua em uma velocidade recorde e me puxa novamente para cima dele, me penetrando rapidamente, apertando e dando tapinhas leves na minha bunda. Paro, me ajoelho e enfio o pau dele inteiro na minha boca, arrancando gemidos de prazer dele. Algum tempo depois ele levanta, me encosta na parede de costas e me penetra lentamente, colocando apenas a cabeça do pau dele, me deixando com vontade de senti-lo inteiro, me fazendo pedir para que ele enfie tudo de uma vez, me dando cada vez mais tesão. Com os dedos ele sente como estou excitada e murmura na minha orelha:
- Tá molhadinha hein meu amor.
E sem aviso me penetra de uma vez, atendendo meus pedidos, adorando meus gritos, rodando os bicos dos meus seios do jeito que só ele sabe, do jeito que ele sabe que me enlouquece. Continuamos nessa posição até gozarmos juntos, e não satisfeito ele me chupa lentamente até eu ter vários orgasmos.
Caio exausta no sofá, nos olhamos e sorrimos. Vou fazer o que puder para esquecer essa tal de Raquel, já que não significou nada para ele, só não sei muito bem como ainda.
- Vamos deitar na cama meu amor. Eu te amo.

Nos deitamos na cama dele e por mais que me custe admitir, estou feliz de estar aqui com ele, estava morrendo de saudades. Quem sabe, as coisas podem ser realmente diferentes dessa vez e não quero saber dele e da Raquel. Vou confessar uma coisa: acho que a sinceridade é super valorizada hoje em dia. Não defendo a mentira, mas muitas vezes acho que as pessoas só são honestas para desencarno de consciência . Se ele agarrou a Raquel durante nosso namoro, o fato de ele ter trocado beijinhos com uma menina que não suporto me doeria muito mais do que os beijinhos propriamente ditos e nosso amor é mais importante do que uma suposta traição. Vou esquecer dessa confusão toda e ser feliz. Beijo ele uma última vez e durmo na mesma hora, não tenho sonhos nem pesadelos e descanso.

O Roberto me acorda da maneira mais agradável que existe: vários beijos na nuca e um abraço. Continuo de olhos fechados, passo uma mão nos cabelos dele e desejo um bom dia, minha voz está rouca, meu corpo quente, meus cabelos embaraçados. Estou de costas para ele, me encaixando na barriga dele, minha cabeça logo abaixo do queixo dele. Lembro que dormimos sem roupa e deslizo minha a mão que estava na nuca dele até a bunda e a deixo lá. Ele apóia a mão na minha barriga e me aperta contra ele, pressionando nossos corpos. A cada beijo que ele dá na minha nuca sinto a respiração dele, a ponta do nariz, um pouco das bochechas, viro a cabeça procurando a boca dele e trocamos um longo beijo de bom dia.
Depois de um delicioso café da manhã me visto correndo, vou para casa, me troco e sigo para o trabalho. Não percebo o engarrafamento de quase meia hora que me faz chegar atrasada no trabalho e executo todas as tarefas sem sentindo que a Lurdes pede sorrindo. Quando menos espero lembro da nossa transa, do Roberto falando que me ama, que está com saudades. Você também se lembra da Vara Pau, é ou não é? Sim, verdade porém irrelevante. No final do expediente ligo para o meu Namorado, cheia de amor para dar e planos para o jantar: filé + sexo. Deixo tocar cinco, seis, sete vezes, a ligação cai na caixa postal e ligo novamente. Ele provavelmente deve estar no trânsito e não ouviu o celular tocando, ou deve estar divagando sobre nossa cerimônia de casamento e muito distraído para reparar em coisas mundanas como um celular. No oitavo toque ele atende.
- Oi meu amor! – a voz de Gatinha Apaixonada volta – Estava com saudades!
- Também.
- Você quer jantar comigo?
- Não vai dar hoje.
- Porque?
- Estou atolado de trabalho e quero dormir cedo. Fica para amanhã está bem?
- Claro, tchau.

Desligo o telefone e tento não ficar decepcionada e ser compreensiva, ele tem um emprego muito estressante, um cargo de confiança. Você tocou na palavra chave não é querida? CONFIANÇA. Até você sabe que no fundo duvida que ele esteja querendo dormir cedo para descansar, você acha que ele está comendo a Girafa Anoréxica nesse exato momento e por isso ele não te atendeu na primeira ligação.
Não, me recuso a ser uma namorada paranóica; ele me ama, só está cansado e entendo perfeitamente, alias, também estou exausta. Se você confia tanto nele porque está se dirigindo à casa dele e não à sua? Ora bolas, o motivo é simples: quero dar um beijo nele. Algum problema?
Ignoro meu senso de ridículo e minha Voz Interior, estaciono meu carro, olho para a janela do Roberto, vejo duas luzes acesas e me felicito por ser romântica e espontânea. Toco a campainha, espero dez minutos e ele finalmente abre a porta, vestindo apenas uma bermuda e um pouco pálido. Ai coitadinho, acabei de acordá-lo.
- Juliana? O que você está fazendo aqui? – o tom dele é acusatório mas resolvo ignorar. Passo meus braços em volta dos ombros dele e o beijo.
- Vim só te dar um beijo. – respondo acariciando a barriga dele. – Estava com saudades.
- Que bom, obrigado, adorei mas eu realmente quero descansar, estou moído. Será que a gente pode se ver amanhã?
- Ãh... Claro... Eu... ãh... Só queria te dar um beijo. – fico tensa e desconfiada. Porque ele nem me convidou para entrar? Porque ele está me enxotando? – Bem... ãh... Até amanhã.
- Tchau. – depois de um selinho sem graça ele sorri rapidamente e fecha a porta.

Estranho não? Além de intrometida minha Voz Interior também é irônica.
Entro no carro ligo o cd player e fico parada onde estou, esperando algo que nem eu sei o que é. Uma caravana de prostitutas? Uma ex-namorada carregando duas bonecas infláveis? Isso é ridículo, eu sou completa e totalmente ridícula. Ele me falou que estava cansado e que queria ficar sozinho, eu apareço na casa dele, o acordo e ainda espero m buquê de rosas. Balanço a cabeça, relaxo e ligo o carro. Olho para o retrovisor e meu corpo inteiro fica gelado: a Girafa Anoréxica está na portaria falando no interfone. Calma Juliana, muita calma. Isso não significa nada, absolutamente nada. Como não? Dois minutos atrás você estava certa de que um trio elétrico cheio de prostitutas ia virar a esquina e agora que essa mulher aparece você diz que não é NADA? Escondida atrás do volante a observo entrando na portaria e desaparecendo dentro do elevador.
Tenho escolhas distintas:
a) voltar para casa e esquecer desse cretino;
b) ficar esperar ela ir embora e confrontar o Roberto;
c) Subir daqui cinco minutos, pegá-los no flagra e quebrar uma panela na cabeça do Roberto;
d) N.d.a

Escolho a opção d). Ligo para o Fernando e conto tudo que aconteceu, desde ontem à noite até o presente momento e a resposta dele é clara, objetiva e sem rodeios. Exatamente o contrário do que quero ouvir.
- Jú, vai embora e esquece desse cara. Enquanto falamos ao telefone ele está tirando a calcinha dela e ela está elogiando o pau dele. Vem para cá.– o tom de voz do Fernando é anormalmente gentil e é o que mais me preocupa.
- Eles podem estar só conversando.
- Sobre?
- Não sei... Talvez ele queira dar satisfação, explicar que voltamos e que pedi que eles não se falassem mais. – percebo exasperada que estou chorando.
- Jú. Sai. Daí. Agora. Vem para cá.
- Daqui a pouco.

Desligo na cara do Fernando e tento raciocinar: ele estava cansado demais para me dar mais de dois beijos e pode ter conversas existenciais com essa vaca? Ele não está tendo conversas existenciais com ela. Saia daí enquanto ainda tem um pingo de auto-estima. No final sigo o conselho da minha Voz Interior e vou embora, duas horas depois, seguindo o carro da Girafa Anoréxica.

Choro muito no caminho de volta, xingo o Roberto, me odeio por ter acreditado nele. Isso não vai ficar assim, pode ter certeza. Não vai ficar assim mesmo.

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Capítulo 3 [04 Oct 2005|01:03pm]
[ mood | working ]
[ music | Shakira - que me quedes tu ]

Existem frases que são utilizadas por todas as pessoas do mundo, a alguma altura da vida, e uma delas é: “nunca mais eu bebo”. Normalmente essa declaração é feita em uma manhã de domingo, um raio de sol bate diretamente no rosto do ser humano em questão, que por sinal, esqueceu de fechar as cortinas. Ele se levanta, fala alguns palavrões, fecha a cortina e tenta dormir novamente. Meia hora depois aceita os fatos: não vai mais dar para dormir, a cabeça lateja, a boca está seca e pastosa, os olhos ardem e o corpo dói.
Junto toda a força de vontade que tenho para encontrar uma solução para o dilema que vivo: posso levantar, beber água e comer ou continuar deitada na esperança que a Tatiana entre para ver como estou e traga tudo que preciso. Espero mais alguns minutos, na esperança que tenhamos alguma conexão telepática e desisto. Jogo minhas pernas para fora da cama, calço meus chinelos amarelos e saio do quarto ainda cambaleando e protegendo meus olhos com as mãos. Nunca tinha reparado que o sol era tão... Brilhante.
Na cozinha entro em êxtase ao encontrar a cafeteira e logo depois entro em depressão por perceber que o café solúvel acabou. De que adianta ter uma cafeteira italiana se não tenho a matéria prima em casa? “Droga de vida” falo em voz alta. Estou de ressaca, o sol está nos assando vivos, meu ex está trepando com uma Vara Pau Anoréxica, amanhã me reencontro com minha chefe Obesa e não tem café. Abro a geladeira e vejo: uma garrafa de vodca, uma caixa de leite, três maças, queijo, uma latinha que com certeza deveria estar no lixo. Pego uma maçã e vou até a sala, ligo a televisão à procura de algum programa semi-interessante.
Manhãs de domingo são deprimentes para os solteiros e não adianta tentar negar. Acho muito bom ser uma mulher independente, sem amarras, poder transar com quem quero e na hora que quero, comer qualquer porcaria, não ter que dar satisfação a ninguém; porém aos domingos sinto uma falta louca de um namorado e as vezes até me vejo com dois filhinhos à tiracolo, passeando alegremente no parque, me divertindo e mostrando os segredos da vida para os dois.
Um homem careca e gordo aparece na tela segurando um bezerro e logo troco de canal, paro em uma cena de um filme; uma casal no aeroporto se despedindo. Eles trocam juras de amor e o cara fala coisas que nenhum homem heterossexual seria capaz de dizer. “Queridinha, não se iluda ele é gay” penso. Troco novamente de canal e me divirto durante um tempo tentando decifrar o que o repórter chinês está informando em relação a ovos de avestruz e desligo a televisão. Que tédio.
Gostaria de estar estirada na cama com alguém, rindo e trocando beijinhos, fazendo planos para o resto do dia e falando da semana e não estar jogada no sofá como um saco de batatas, com a impressão que homenzinhos estão tentando abrir meu crânio com picaretas. Olho pela sala inteira à procura de alguma coisa para passar o tempo e reparo na minha bolsa e lembro: meu celular tocou ontem à noite. Provavelmente o Fernando totalmente embriagado querendo relatar cruamente os peitos de alguma mulher.
Depois de uma pequena busca pelas profundezas da bolsa e tropeçando em embalagens de chiclete, batons, canetas, bilhetinhos, recibos, encontro o meu celular. Levo um choque quando vejo o visor: o Roberto me ligou às duas da manhã. Fecho o telefone de uma vez e o jogo novamente na bolsa, como se tivesse acabado de descobrir que a geringonça é na verdade uma cobra venenosa. Fico parada no meio da sala sem saber o que fazer e opto por desligar meu celular. O que quer que eu decida fazer, ligar de volta não é uma opção, pelo menos não antes de conversar a respeito com alguém. Corro para meu quarto e checo meu despertador: Uma e quinze, ainda é muito cedo para ligar para o Fernando e a Tatiana ainda está dormindo. O jeito é me ocupar. Tomo um longuíssimo banho, ouvindo quase o cd inteiro dos Black Eyed Peas, arrumo meu quarto, vou ao supermercado com a intenção de reabastecer a dispensa e a geladeira. As duas e quarenta e cinco volto para casa e a Tatiana está pegando um copo com água na cozinha enrolada em uma toalha.

- Você é uma santa – ela exclama vendo as sacolas de supermercado. – Já estava achando vitamina de vodca e maçã uma opção saudável de café da manhã.
- Comprei leite, suco, frutas, macarrão, condimentos para fazer um molho de tomate delicioso, parmesão e pão.
- Uma verdadeira dona-de-casa.

Enquanto ela se veste guardo as compras e coloco o macarrão no fogo, corto legumes, os refogo, tempero, misturo com o molho de tomate. Nos servimos e vamos almoçar no sofá, equilibrando os pratos emcima das pernas, ao som da MTV. Ouço a Tatiana me contar sobre o trabalho e o mais novo interesse amoroso dela, um cara da academia e formulamos milhões de planos para que ela chame a atenção dele sem parecer que se esforçou demais.
Não quero contar sobre o telefonema do Roberto, não significou nada, ele devia ter bebido algumas cervejas a mais e me ligou. Analisar cada possível motivo por ele ter ligado é um sinal de que me importo e não é o caso, se ele quer falar com alguma mulher de madrugada que ligue para a Raquel e me esqueça. Mais do que nunca tenho certeza de que ele me traiu e saiu correndo daquele restaurante para dar umazinha com aquela Anoréxica. Pois os dois que se danem. Há males que vêm para bem, já dizia sua avó não é mesmo Juliana? Isso mesmo Voz Interior, foi muito bom ter encontrado com aquela Vara Pau no restaurante; esse encontro me fez esquecer da tristeza de ter perdido o Roberto e ficado com raiva dele. Em dois dias não vou me lembrar do sobrenome dele, em cinco dias quando me perguntarem “e o Roberto?” vou responder “quem? Ah... Ele. Não sei, nunca mais nos falamos” e vou ser uma profissional bem-sucedida enquanto ele vai ficar gordo e desempregado e matar a Anoréxica asfixiada durante uma trepada. Viu? Estou totalmente indiferente.

Um toque do telefone faz a imagem do Roberto com cinqüenta quilos a mais sendo preso sumir da minha cabeça. A Tatiana alcança o telefone, procura o controle para abaixar o volume (um cantor cabeludo berra e no fundo uma mulher aparentemente morta bóia em um rio negro), não encontra e acabando desligando a televisão. Por um tempo ela fica conversando e eu termino minha refeição pensando no que posso fazer do resto do meu domingo. Teatro, cinema, restaurante, bar, boate, alugar filme, tantas opções... Espero que nenhuma delas inclua ligar para o Paulo ou pior: para o Roberto. Quê isso Voz Interior, não preciso de homem nenhum, a companhia da minha amiga é mais do que suficiente. Não me interessa o que o Roberto queria comigo e o Paulo deve estar muito entretido mentindo para a Sereia Turbinada. A Tatiana desliga o telefone e recomeça a comer.
- Você tem planos para hoje Jú? – ela me pergunta com a boca cheia de molho de tomate.
- Ainda não. Você tem?
- O pessoal da faculdade vai para um bar daqui a pouco, quer ir?
- Pode ser.

Passo o resto da tarde cochilando e as seis e meia me arrumo e saio com a Tatiana no carro dela em direção de um dos melhores bares de Brasília, fica na beira do lago e é super agradável. Durante o trajeto lembro que meu celular está desligando, rio de mim mesma por ser tão infantil e ligo o aparelho.
Que bobagem reagir daquele jeito só por causa de um telefonema. Quem vê até acha que o Roberto ainda significa alguma coisa para mim, que tolinha sou! E não significa não? Achava que tinha mandando você dar uma volta e me esquecer, se for para empacar meu processo de esquecimento desse Bastardo de Marca Maior, acho bom ficar quietinha.
A tela do telefone se ilumina e alguns segundos depois, um apito soa três vezes seguidas. Tenho quatro mensagens de texto e uma mensagem de voz. A primeira reação que tenho é ansiedade, que logo é substituída por alívio - e uma pontinha de decepção não? quando vejo que o Fernando me ligou duas vezes e o alívio é substituído por choque total e completo ao ver que o Roberto também me ligou. A Tatiana manobra para estacionar o carro enquanto ouço a secretária eletrônica. Meu coração dá um pulo ao ouvir a voz do Roberto. “Oi Jú, é o Roberto, queria saber como você está. Bom, é o seguinte: me liga quando você ouvir esse recado está bem? E... ãh... Estou com saudades. Tchau.”. Escuto o recado mais duas vezes, uma porque não acredito que ele tenha ligado e dito que está com saudades e a segunda simplesmente porque senti uma falta tremenda de ouvir a voz dele.

Estou preste a contar para a Tatiana o que está acontecendo mas encontramos com uma amiga dela e vamos direto ao bar, conversando sobre outras coisas. Melhor assim, penso, não vou ligar só porque ele resolveu se lembrar de mim. Se ele quer falar comigo, ele que continue tentando até conseguir. Para minha imensa surpresa não são palavras vazias e sim como me sinto. Vai ver que um dos motivos do nosso namoro ter esfriado foi o fato que eu estava sempre muito acessível, deixei claro demais o quanto gostava dele. Agora ele vai ter que se esforçar para tirar algo de mim, como ele provavelmente se esforçou com a Girafa Anoréxica. Lembro da Raquel e fico fula da vida com o Roberto de novo. Se ele gosta tanto de girafas com cabelo alisado que fique com elas. Vou é me divertir e parar de desperdiçar meu tempo pensando nele.

As amigas da Tatiana são muito simpáticas e a noite passa rápido, agradável e divertida e nem lembro mais do recado do Roberto quando nos despedimos. No caminho de volta para casa estou feliz, tranqüila, mal consigo acreditar que há uma semana me embriaguei para não sentir tristeza, não pensar em nada e agora estou ótima. Será que você não está tão bem porque ele acabou ligando? Claro que não, esse comentário me insulta! Determinada a não ficar obcecada pelo telefonema do Roberto, ligo para o Fernando assim que chego em casa.
- Oi Nando, acabei de ver que você ligou.
- Pois é, queria te chamar para um churrasco. – ouço no fundo música, gritos, conversas, algumas vozes conhecidas e outras nem tanto. Típico barulho de fundo de bar/churrasco/festa. – Ainda estou aqui, quer vir?
- Não, obrigada pelo convite. Depois a gente conversa.

Parece que o Fernando não me conhece, simplesmente detesto churrascos, acho o supra-sumo da cafonice. Aquele amontoado de jovens bêbados, música baiana no volume máximo impedindo qualquer possibilidade de comunicação, fumaça com cheiro de picanha impregnando o ambiente, homens de regata e bermuda, comida sendo servida em bandejas, pessoas comendo com as mãos... O pior é que quanto mais bêbados os convidados ficam menos noção de horário eles têm, ficando no churrasco até meia-noite, mesmo que o anfitrião esteja dormindo com a cara na vinagrete.

Já estou deitada na cama lendo um livro do Veríssimo e meu telefone toca: o Roberto. Atônita, espero ele desistir e tento recomeçar a ler mas não consigo me concentrar. O telefone recomeça a tocar e não dá mais para ignorar. Pego o celular e vou correndo até o quarto da Tatiana, bato uma vez e abro a porta, ela está na escrivaninha lendo uma xerox e fazendo anotações.
- Jú? Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu isso. – coloco o visor do telefone na frente dos olhos dela. Parece que estou segurando a prova irrefutável de que não foi Lee Harvey Oswald que matou Kennedy.
- Não acredito! Atende!
- Você ficou louca?? Vou atender e falar o que? – o telefone pára de tocar. – Desde ontem ele está tentando falar comigo, já deixou um recado no correio de voz. O que eu faço?
- Ele falou o que no recado?
- Me pediu para ligar para ele.
- Me deixa ouvir, ou você apagou?
- Não apaguei. – respondo corando, sei que deveria ter apagado mas não tive coragem.

A Tatiana escuta o recado três vezes antes de formular uma teoria e uma opinião. Estamos em plena discussão sobre o tom de voz que devo usar quando ligar para o Roberto e o telefone toca novamente. Olhamos para o celular que está em cima da cama sem saber se devemos desligá-lo, atender ou chamar o esquadrão antibombas.
- Jú, atende, quanto mais você adiar pior vai ser.
- Está bem, lá vou eu. – vejo minha mão tremendo levemente e abro o celular sem falar nada.
- Alô? Jú? Sou eu, o Roberto. - nesse momento sinto milhões de gafanhotos pulando na minha barriga e um litro de água fria escorrendo pelas minhas costas. – Você está me ouvindo?
- Ahã. Estou. – sinto a boca seca e meu cérebro simplesmente desligou toda e qualquer função, inclusive batimento cardíaco. – Você... ãh... está bem?
- Mais ou menos. Desde ontem estou atrás de você, parece até que você está me evitando.
- Ãh...
- Como você anda?
- Ãh... Bem... ãh... – a Tatiana me dá um tapa na perna. Ela articula “fala alguma coisa” e me dá outro tapa na perna. – Estou bem. E você?
- Com saudades.
- Ãh...
- Você sentiu minha falta? – ele pergunta em um tom meloso – Pensou em mim?
- Ãh... Sim. Ãh... Claro.
- Eu gostaria de te ver, para conversarmos.

Não cai nessa queridinha. Conversar sobre o que? Ele não queria se afastar para reavaliar os sentimentos? Que sentimentos são esses que podem ser reavaliados em sete dias? E a Girafa Anoréxica?
- Ãh... Não sei se é uma boa idéia Roberto. Você me pediu um tempo e só se passou uma semana. – digo firmemente, mais segura. Minha Voz Interior tem razão. E a Girafa Anoréxica, onde ela se encaixa nessa história?
- Pode ser mas eu quero muito te ver, estou com saudades suas. Por favor.
- Está bem. – minha Voz Interior protesta histericamente mas prefiro ignorá-la. É só uma conversa. – Quando?
- Amanhã, depois do trabalho.
- Combinado, até amanhã.
- Um beijo, linda.
- Ãh... Tchau.

Desligo o telefone e encaro a Tatiana sem saber o que pensar, aviso que vou para o meu quarto tentar me acalmar e colocar meus pensamentos em ordem. Simplesmente não acredito que o Roberto me ligou, logo agora que estava me conformando com a idéia de que ele não me ama mais. Ele ligou, falou que está com saudades, me pediu para encontrá-lo. Lembro da conversa que tive com o Fernando no restaurante, que um tempo pode ser apenas um tempo mesmo, só que também lembro do encontro com a Raquel no banheiro e fico na dúvida novamente. Se ele transou com ela nessa semana vai ser difícil de engolir mas não impossível, afinal eu transei (e muito) com o Paulo, mas se ele ficou com ela quando estávamos juntos, simplesmente não sei. Meu pensamento fica em círculos, sempre voltando à questão da Raquel e já é mais de uma da manhã quando finalmente consigo dormir.

O despertador toca as seis da manhã e acordo na mesma hora, estou alerta e disposta, visto um short e um casaco, meu tênis, pego meu Ipod e vou correr. Ouvindo a J.Lo cantando e sentindo minha respiração em um ritmo cadenciado fico mais serena, esvazio minha cabeça e todas as tensões somem aos poucos. Esqueço do telefonema do Roberto e que daqui umas doze horas vamos nos encontrar, do Paulo, da Raquel, da Lurdes que vai me infernizar daqui a pouco, de tudo. Agora nada existe além de respiração, impacto dos meus tênis no asfalto, batimento cardíaco, suor, música. Nada de bom, nada de ruim, só o essencial. Comecei a correr alguns anos atrás e se no começo odiava e inventava qualquer desculpa para ficar em casa hoje não consigo passar mais de dois dias sem correr alguns quilômetros e passei a acreditar nas pessoas se assumem viciadas em atividade física.
Às sete horas volto e esse é a maior recompensa de praticar algum exercício: tomar um banho longo, sentindo os músculos relaxando e uma felicidade extrema por nenhum motivo específico. Me visto, como alguma coisa e vou para o trabalho contente e determinada.

Pena que essa determinação se evapora até a hora do almoço, a Lurdes é a pessoa mais maníaca e exaustiva que já conheci. Ela me pede para tirar fotocópias (e não “xerox”) de tudo, fazer infinitas ligações e tudo que faço é errado, nunca fui tão criticada. Na sexta-feira passada, fiz uma apresentação impecável (ainda mais considerando que só tive duas horas e meia para prepará-la) que foi elogiada por várias pessoas, até o Desconhecido Carlos menos ela.

Enquanto como minha salada penso em várias formas de torturas e sou interrompida pela Graziela.
- Almoçando sozinha?
- Pois é, deprimente não? – pergunto sorrindo mas no fundo falo sério. As revistas femininas podem defender o que for, comer sozinha é triste.
- Não está mais sozinha. – ela puxa uma cadeira do outro cubículo e se senta, tirando um sanduíche de presunto de dentro de uma embalagem plástica. – Queria ser como você e lembrar de trazer algo de casa e não ter que recorrer a sanduíches pseudonaturais que custam dez reais.
- Até que esse está com uma cara relativamente fresquinha. As vezes só fazia uma semana que estava na lanchonete. – nos entreolhamos e me pergunto se não fiz uma brincadeira de mau gosto mas ela ri e eu também.
- A Lurdes é dose né?
- Ãh... Bem... Ela é exigente. – até parece que vou falar mal da minha chefe depois de apenas uma semana de trabalho. – Sou nova, é normal que ela queira me testar.
- Claro. Muito natural, mas ela poderia fazer isso com um pouco de educação. Sei que você está sendo diplomática portanto não vou continuar o assunto.

Conversamos sobre muitas coisas e a hora do almoço passa voando. Renovada, ataco minha montanha de trabalho com mais disposição e me mantenho de bom humor até o final do dia. Na saída a Graziela me alcança e me convida para tomar uns drinques para relaxar. Já são seis e meia, combinei de me encontrar com o Roberto e mesmo assim aceito o convite. Não marquei horário com ele e mesmo se tivesse, ele que espere, não vou correndo para a casa dele que nem um cachorrinho. Ele não me ligou para combinar nada ainda por cima; se ele não ligar não vou, pronto, decidido.

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Continuação capítulo 2 [29 Sep 2005|11:44am]
[ mood | working ]
[ music | Shakira ft Alejandro Sanz - la tortura ]

As duas da tarde abro os olhos com uma certa relutância, continuo deitada por algum tempo massageando as tempôras, engolindo saliva em uma vã tentativa de atenuar a secura da boca. A duras penas abro a persiana e fecho as pálpebras para proteger minha pobre retina da luz do sol. Escuto ao longe o telefone tocando na sala e decido não atender, a Tatiana que atenda, só pode ser para ela. O telefone continua tocando e pára depois de uns quinze toques. Ou a Tatiana está com uma ressaca pior do que a minha ou não está em casa, espero sinceramente que seja a segunda opção; tive uma noite maravilhosa e não estou nem um pouco com vontade de ouvir lição de moral.
Deito novamente, de barriga para cima, com os braços cruzados debaixo da cabeça e repasso todos os detalhes da noite na minha mente: o motel, a banheira, as transas, o champanhe, o vinho, o jantar, o restaurante...
O restaurante! O meu carro no estacionamento do restaurante, se é que ainda está por lá. Cubro meu rosto com as mãos e resmungo para mim mesma; a última coisa que quero fazer é sair de casa, pegar ônibus e dirigir. Se ainda estivesse com o Roberto poderia pedir uma carona até o restaurante e tudo seria bem menos desagradável. Se bem que se ainda estivesse namorando não teria essa noite incrível no motel e ele provavelmente falaria ao telefone durante o trajeto inteiro. Não estou triste de não ter acordado ao lado do Roberto, nem por fazer uma semana que não nos falamos. Ele que se dane, tenho amigos (e agora tenho um caso maravilhoso, baseado em sexo). Me arrasto até a sala, pego o telefone e disco o número do Fernando.
- Nando? É a Jú.
- E aí linda. Beleza? – No fundo ouço a voz de algum metereólogo anunciando a previsão do tempo para o final de semana.
- Beleza, fora a ressaca. Vem cá, posso te pedir um favor? – porque toda vez que falo com o Fernando minha voz fica mais fina e feminina?
- Claro.
- Ontem eu saí com o Paulo e deixei meu carro no estacionamento de um restaurante na asa norte. Me leva até lá para que eu possa buscá-lo?
- Beleza. Você já almoçou?
- Não, acabei de acordar.
- A gente almoça depois em algum lugar que tal?
- Combinado. Até daqui a pouco.

Tomo um banho rápido, procuro pelo apartamento inteiro por uma aspirina e estou quase desistindo quando encontro uma única e solitária embalagem atrás das panelas. Tomo duas, passo maquiagem e desço. O Fernando chega e fico horrorizada ao ver que ele veio de moto.
- Você não espera que eu suba nessa coisa com você.
- Relaxa, tirei a carteira dois meses atrás e não matei ninguém até agora.
- Até agora? Encorajador. – resmungo, enfiando o capacete na minha cabeça. – Como se coloca esse troço??
- Espera. – O Fernando chega perto do meu rosto e com um pouco de força puxa o capacete para baixo e fecha a fivela para mim. Estamos sorrindo. – Ficou gatona.
- Praticamente uma motoqueira. – respondo ainda sorrindo, pensando que ele é um dos homens mais gentis que conheço.
- Praticamente.
Subo na garupa e me agarro à cintura do Fernando. A moto anda, a velocidade aumenta, fico assustada e depois relaxada. Encosto minha cabeça nas costas dele e aproveito a sensação de liberdade de poder ultrapassar carros e ônibus. O céu está azul e o sol forte mas sinto frio por causa do vento e me arrependo de não ter pego um casaco, minhas mãos estão geladas.
Eu deveria aprender a andar de moto, comprar uma (vermelha de preferência), usar jaquetas de couro com uma águia bordada atrás, batom vermelho e jogar sinuca. Tiraria o capacete devagar, balançaria meus cabelos como num anúncio de cigarro. Seria uma nômade, andando pelas estradas do país em busca de sexo e aventura, indo a encontros de motoqueiros, abrindo garrafas de cerveja com os dentes. Poderia oxigenar meu cabelo e...
- Jú, chegamos.

Tento descer graciosamente da moto mas pego impulso demais e caio no chão. O Fernando desce com toda a elegância de uma pessoa que passou a vida inteira andando de moto e durante uma fração de segundos o acho extremamente sensual e másculo, só que a impressão passa na mesma hora em que ouço a gargalhada dele. Ele me ajuda a me levantar, me pergunta se estou bem e cai na risada novamente; é contagioso, começo a rir também. Combinamos de nos encontrar em um restaurante chinês que tem por perto e entro no meu carro. Almoçamos frango xadrez com arroz, rolinho primavera e conto todos os detalhes da minha noite e ele me conta os da dele. Falamos de trabalho, estudos, cinema, atualidades e temos crises de riso a cada dez minutos. De lá vamos ao cinema e assistimos a um filme horrível de ação, depois tomamos um capuccino, conversamos mais um bocado, escolhemos um restaurante mexicano para jantar. Nos sentamos, fazemos os pedidos e enquanto tomo uma marguerita a conversa toma um rumo que não me agrada muito.
- Você falou com o Roberto?
- Não. – tomo mais um gole de marguerita, apreciando o gosto da tequila e limão, tentando ignorar o fato que o Roberto não me ligou nenhuma vez, não me mandou nenhum sinal de que está vivo. – Não tenho motivos para achar que ele vai ligar Fernando. Ele terminou comigo e deve estar curtindo como eu estou.
- Ele não te pediu um tempo?
- Isso é eufemismo masculino para terminar um namoro. – falo com um tom de voz firme, mas torço secretamente para que o Fernando me contradiga. – Ele não deve me amar mais.
- Eu não teria tanta certeza se fosse você Jú. Quando pedi um tempo para a Sara pensava direto nela e morria de vontade de ligar só para ouvir a voz dela. Mas nosso namoro estava muito desgastado e precisava sentir saudades por um tempo.
- Sentia saudades ao mesmo tempo em que você transava com outras mulheres?
- Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Você transou com o Paulo, não quer dizer que você não sinta falta do Roberto.
- Eu não sinto mais falta dele! – repito isso toda vez que a Tatiana ou qualquer outra pessoa fala do Roberto e dessa vez acredito no que falei. – Ultimamente tenho visto que ele não me merece.
- Em outras palavras: o Paulo manda muito mais na cama do que ele.
Jogo minha cabeça para trás e rio alto, com vontade, com gosto. Peço licença e vou ao banheiro para retocar minha maquiagem e tentar me acalmar. Estou saindo e esbarro com uma morena alta, levemente familiar. Ela fica me olhando, franzindo a testa, imóvel na frente da porta.
- ãh... Licença... A porta... ãh... Quero sair.
- Você é a Juliana?
- Ãh... Sou.
- A ex do Roberto?
- Ãh... A gente deu um tempo. – quem é essa garota?? De onde a conheço mesmo?? – De onde a gente se conhece?
- A gente não se conhece “oficialmente” – ela responde com um sorrisinho arrogante, frisando as aspas – mas eu conheço o Roberto. Ele me contou o que aconteceu entre vocês dois.
- Ãh... Pois é. Ãh... A porta? – quero sair desse banheiro mais do que qualquer outra coisa, estou tendo a impressão de que vou ouvir alguma coisa que vou odiar. – Tem uma pessoa me esperando.
- Só um minuto. – o sorriso dela fica maior, os olhos com um brilho estranho, quase maldoso – Nem me apresentei, sou a Raquel.
- Prazer. – estendo minha mão, controlando o frio que sobe pela minha coluna. – Licença?
- O Roberto está superando viu. Saímos juntos na semana passada e ontem. Coitadinho, não quis deixá-lo sozinho. – Quem essa vara-pau magrela acha que é? Tento pensar em várias respostas sarcásticas, nada me vem em mente. Fico horrorizada ao perceber que estou ficando com vontade de chorar e saio do banheiro sorrindo. – Agora que vocês estão separados posso passar ainda mais tempo com ele.
- Manda um oi para ele. Ãh... Tchau.

Volto para a mesa sem saber como cheguei lá. Não vejo nada, as mesas, as pessoas sentadas conversando alegremente, os garçons andando por todos os lados carregando bandejas, não sinto o cheiro de pimenta e carne e caio como um saco de pedras na minha cadeira. Minhas mãos estão frias, meu rosto branco e meus joelhos bambos. Lembrei de onde a conheço.
- O que aconteceu Jú? O chilli não caiu bem? – o Fernando pergunta sorrindo. Ele obviamente não faz idéia do encontro de terceiro grau que acabei de ter.
- Eu. Acabei. De. Encontrar. Uma. Menina. Que. Odeio. Ela. Dava. Emcima. Do. Roberto. – fico com enjôo ao lembrar da nossa conversa, olho para meu prato que chegou enquanto estava no banheiro e o empurro para longe de mim. Bebo de uma só vez o resto da minha marguerita e peço outra ao garçom.
- Quem?
- Aquela vadia da Raquel.
- Quem?
- A Raquel!
- Não sei quem é. – ele me olha curioso. – Me conta.
- Uns meses atrás o Roberto estava esquisito comigo e fiquei desconfiada. Não sabia do que estava desconfiada, mas estava. Uma noite esperei ele dormir e olhei todas as ligações do celular dele e todas as mensagens que ele enviou e recebeu. - ignoro o olhar de reprovação do Fernando. - Tinha uma dessa Raquel, muito esquisita, não lembro direito o que era mas dava a entender que eles tinham ficado. Ela sempre deu muito emcima dele, desde o começo do nosso namoro mas nunca me preocupei muito até ver a mensagem. – falo rápido e sinto borboletas voando na minha barriga quando lembro da sensação que tive quando vi a mensagem. Olhava para o Roberto dormindo e tinha vontade de acordá-lo só para enfiar o celular na boca dele. Ou em outro lugar. – Conversei com o Roberto a respeito, ele me garantiu que não era nada, que eles nunca tinham tido nada e resolvi acreditar nele, mas no fundo sempre fiquei a pulga atrás da orelha. E hoje ela me falou que saiu com ele semana passada e ontem. Aí tem coisa Fernando, aí tem coisa.
- Que diferença que isso faz agora?
- Como assim?
- Na época você acreditou, vocês estavam juntos. Agora que estão separados vai fazer diferença? Esquece isso, toma sua tequila e come suas tortillas.

No fundo sei que ele tem razão mas não consigo pensar em outra coisa e a verdade fica clara: o Roberto me traiu com aquela Vara Pau Anoréxica, tenho certeza. Tento disfarçar e pensar em outras coisas, rir das piadas do Fernando, mas uma frase fica se repetindo no fundo do meu cérebro: o Roberto me traiu com uma Vara Pau Anoréxica. Pagamos a conta, nos despedimos e no caminho de volta para casa não agüento mais imaginar o Roberto transando com aquela garota em posições inexistentes até no Kama Sutra para Veteranos. Estou com ódio do Roberto, me achando gorda demais, baixa demais, loira demais, desengonçada demais. Deveria ter imaginado. Que raiva de ter sido ingênua o suficiente para acreditar nele na época. Bato a porta do meu carro, dirijo sem prestar muita atenção na estrada, subo as escadas até o quarto andar, entro em casa e dou de cara com a Tatiana assistindo um dvd de sex and the city e tomando vinho.
- Que cara é essa Jú?? – ela pausa a cena (a Samantha está transando com dois homens) e toma um gole do vinho. – Você está com uma cara horrível.
- Ãh... Nada.
- Jú? – ela passa um braço por cima dos meus ombros. – Me conta, o que aconteceu?

A Tatiana me olha com tanta preocupação que me solto e choro. Sento no sofá e choro olhando para a tela, contando entre soluços o que aconteceu no restaurante. Falo de sentimentos que nem eu sabia que tinha, da saudade que estou sentindo, da decepção de não receber nenhum telefonema dele, da vontade de conversar com ele, da mágoa que está ficando cada vez maior, da minha suspeita sobre a Vara Pau Anoréxica. Enquanto isso a Tatiana me entrega uma taça cheia de vinho e me ouve com o braço ainda por cima dos meus ombros.

- Sabe Jú, não costumo concordar com o Fernando, mas acho que nesse caso ele tem razão. Mesmo que ele tenha te traído com essa garota e esteja ficando com ela, se irritar por causa disso não mudar nada, quanto menos ajudar. É muito mais fácil falar do que fazer, mas pensa bem: você está ficando com um homem lindo, bom de cama, tem um emprego que paga super bem e amigos que te adoram. Você não precisa do Roberto, ainda mais se ele foi estúpido o suficiente de te chifrar.
- Eu sei Tati, eu sei... Mas foi tão humilhante. Aquela garota de dois metros, pesando 45 quilos me olhando de um jeito superior, esfregando na minha cara que quem ganhou no final foi ela e não eu. O problema não é ele, é ela. - pronuncio a palavra "ela" como um grunhido - É o cabelo perfeitamente liso, nenhum fio fora do lugar, pele de pêssego, roupas moderninhas, barriga lisa, dois metros e eu sempre levemente despenteada, baixinha e incapaz de uma resposta inteligente. – Apóio minha cabeça no encosto do sofá e tento parar de chorar. - O cisne do lado do patinho feio.

Rivalidade feminina é uma das coisas que mais atrasa a vida de uma mulher: tanto tempo perdido em comparações entre roupas, cabelo, namorado, emprego que esquecemos que devemos fazer as coisas que nos agradam e não aos outros, ou melhor, as outras. O meu namorado tem que ser mais bonito, mais inteligente, meu emprego o melhor, minhas roupas as mais bonitas, meu cabelo o mais bem cuidado. É tão cansativo estar sempre se comparando a outras pessoas, ainda mais quando existem mulheres como essa Raquel à solta pelo mundo: elas existem apenas para que outras se sintam mal.

- Porque você não toma um banho e vem assistir televisão comigo? Aluguei a sexta temporada completa de sex and the city. A gente assiste, toma vinho e fala mal dos homens.
Depois de um banho quente e três horas vendo quatro mulheres passando por situações parecidas com a minha me sinto melhor. É uma e meia da manhã quando entro no meu quarto e me jogo na cama. Estou levemente bêbada, coloco um cd do Frank Sinatra no aparelho de som, cubro minha cabeça com um travesseiro e fecho os olhos esperando o sono chegar. Tenho a vaga impressão de ouvir meu celular tocando, lembro que deixei minha bolsa na sala e antes mesmo de pensar em levantar para atendê-lo, estou dormindo.

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Capítulo 2 [28 Sep 2005|01:16pm]
[ mood | creative ]
[ music | Black eyed peas - don't lie ]

Vestida apenas com um robe de seda preta me sento à frente da minha penteadeira de madeira escura e observo meu reflexo. Prendo meus cabelos em um elegante coque, deixando alguns fios soltos na nuca, me maqueio e passo meu perfume preferido: chanel n. 5. Ao levantar abro uma gaveta e escolho a lingerie a dedo: espartilho preto, calcinha fio dental preta, ambos rendados, meia ¾ e cinta-liga. Coloco os brincos de pérola que ele me deu apesar de achá-los um pouco cafonas. Pérolas é algo que se dá à esposa e não à amante. Amantes ganham diamantes, safiras, rubis. Ele entra no quarto, me olha de cima para baixo com tesão e sorri, devagar, do jeito que adoro. Anda diretamente na minha direção, me beija com paixão passando as mãos por todo meu corpo, beija meu pescoço, sussurra na minha orelha, aperta meus seios com força. Caímos na cama e transamos durante horas sobre os lençóis de seda e quando finalmente chego ao orgasmo grito: PAULO! Encosto minha cabeça no seu peito querendo aproveitar cada minuto que temos. Estamos quase dormindo e uma buzina toca ao longe, na rua e me sinto satisfeita de estar nos braços de um homem que me satisfaz. O carro buzina novamente, várias vezes mas nada me importa.

“SAI DA FRENTE BENZINHO!!!”. Balanço minha cabeça e lembro que estou no meu carro esperando o sinal passar para o verde. Olho para trás, finjo irritação e avanço. Claro que não virei amante do Paulo. Depois que decidi não me preocupar com uma mulher que não conheço passei um dia maravilhoso na cama com o Paulo, transando e conversando. Trocamos números de telefone e quando cheguei em casa estava certa de que tinha feito a coisa certa. Não tem nada de errado em ter um caso baseado em sexo selvagem e alucinante, nada mais normal, saudável e adulto. Isso mesmo, estou sendo ADULTA. Não queridinha, você está sendo uma tremenda sacana isso sim. Só tem um pequeno probleminha: nem a Tatiana nem minha Voz Interior acham essa a melhor idéia que já tive, por mais que tenha tentado argumentar, e, se for cem por cento sincera devo admitir que a Antiga e Ingênua Juliana concordaria com elas. Porém depois de levar um fora humilhante e passar o domingo inteiro transando com um homem possivelmente apaixonado pela Sereia Turbinada percebi que eram sinais que o Universo me enviava: começou uma nova fase da minha vida, uma fase mais madura, menos ingênua, mais adulta.
Para comprovar minha teoria, aqui estou eu no meu primeiro dia em um emprego sério, como assistente da diretora do escritório brasileiro da Anistia Internacional, meu primeiro passo real em direção à ONU, minha entrada no mundo profissional adulto. Sou uma adulta e vou agir como tal: estou vestindo meu terninho ameixa com riscas de giz comprado especialmente para a ocasião, cabelo preso e maquiagem discreta.

Entro confiante no moderno escritório, me parabenizando por ser tão competente e imaginando todas as coisas que vou aprender e as pessoas fascinantes que vou conhecer. Dou meu nome para a recepcionista e ela me pede para aguardar enquanto ela avisa à Senhora Lurdes que cheguei. Senhora Lurdes. Lurdinha em breve.
- Você é a Patrícia? – me pergunta uma senhora de meia-idade, levemente obesa em um tom autoritário.
- Sim. Estou esperando a senhora Lurdes. – respondo friamente. Quem essa gorda acha que é? Ela não reparou no meu terninho moderninho-eficiente-profissional da zara? – Sou a nova assistente dela.
- Sou eu. Por favor venha comigo.
Ela sai andando na frente enquanto fico paralisada olhando para o nada. Certo, lembre-se Juliana, nada é tão ruim quanto parece. Andando um pouco mais rápido que o normal mas sem tecnicamente correr a acompanho até seu escritório (enorme, com vista para o lago e precisando desesperadamente de móveis novos) e me sento na cadeira do outro lado da mesa.
- Muito bem, deixa eu te explicar exatamente o que espero de você. – Lurdes diz bruscamente. – Todos meus compromissos têm de estar agendados, tenho diferentes agendas: uma para reuniões, uma para jantares e almoços, uma para viagens. Cada sexta-feira você terá de organizá-las e deixá-las prontas para a semana seguinte. Duas vezes por mês viajo até São Paulo e você está encarregada de fazer todos os arranjos para essa viagem e qualquer outro que eu fizer. Traduções, criação de pautas de reuniões, telefonemas, fax, cartas, telefonemas, você é responsável por toda essa parte. É expressamente proibidos usar o telefone, internet, fax e qualquer outra tecnologia para fins pessoais, estamos em um local de trabalho. Alguma pergunta?
- Ãh... Não.
- Certo. Venha comigo, vou lhe mostrar sua mesa.
Percorremos o andar inteiro e vejo homens de terno andando em círculos falando ao telefone, mulheres de tailleur teclando ao computador com ar concentrado, funcionários mais jovens por todos os lados carregando documentos e fico motivada novamente. Lurdes aponta um cubículo equipado com uma mesa, uma cadeira, um telefone e um computador.
- Essa vai ser sua mesa. Meu ramal é 010 e o seu 258. Quando precisar de alguma coisa te ligo.
Após essa declaração Lurdes vira as costas e volta para seu gigantesco escritório mal decorado e me deixa em pé olhando para o estéril cubículo. Sento-me e olho em volta: todos estão ocupados e parecem nem perceber que estou aqui. Sem saber o que fazer, ligo o computador e olho para a tela tentando me manter positiva e contente. “Esse é meu primeiro emprego adulto, minha porta de entrada para a ONU” repito várias vezes, mas não funciona. Estou com vontade de ligar para o Roberto e ouvir algumas palavras de carinho e sinto uma pontada de tristeza ao lembrar que ele não é mais meu namorado e sim um Bastardo de Marca Maior.
Desde do Almoço Fatídico tinha desligado meu celular para não ter expectativa de que ele ligasse ou pior, que eu ligasse para ele bêbada. Hoje de manhã liguei o celular, esperançosa, certa de que teria pelo menos uma chamada não atendida, um recado no correio de voz. Nada. Ele não ligou, ele provavelmente já me esqueceu e saiu direto do restaurante para um bordel e ficou o final-de-semana por lá enquanto eu sofria. Se bem que você não ficou chorando e sofrendo durante o final-de-semana... Ou ficou? Ah, cala a boca, essa não é a questão. Ele não sabe que passei o sábado e o domingo transando com o Paulo, ele deveria ter me ligado para saber como estava me sentindo. Bons modos, qualquer pessoa com um mínimo de educação teria agido dessa forma. Bastardo sem educação. Pensar que quando começamos a namorar ele não agüentava ficar um dia longe de mim, que me cobria de beijos e mimos, se preocupava com meu bem estar. No nosso aniversário de dois meses de namoro fomos para uma pousada linda em Pirinópolis e passamos dois dias bebendo vinho, rindo, conversando e fazendo amor.

Como fazer amor com o Roberto era bom. Tinha vários orgasmos por noite, nunca estava satisfeita; quanto mais prazer ele me dava mais eu queria. E como eu sentia prazer com ele, principalmente quando ele me chupava. Tinha orgasmos múltiplos fulminantes, minhas pernas ficavam bambas, meus ouvidos entupiam, não conseguia segurar meus gritos, pedia para ele parar e ao mesmo tempo pedia para ele continuar. Com o Roberto me sentia bonita, sensual e tudo era uma delícia. Me dava prazer chupá-lo, ficava excitada sentindo o pau dele dentro da minha boca, as mãos dele apertando o bico dos meus seios, acariciando minhas costas, puxando levemente meu cabelo, e enquanto eu chupava imaginava todas as sacanagens que faríamos depois, nas que estávamos fazendo naquele momento.
- Com licença? – alguém me cutuca.
- Sim? – olho para cima, uma mulher ruiva muito bonita de mais ou menos trinta anos está me olhando sorrindo, simpática.
- Seu telefone está tocando a uns cinco minutos.
- Ãh? Ah sim, o telefone, claro. Obrigada – sorrio agradecida. – Sim?
- Juliana, é Lurdes. Gostaria que você se familiarizasse com a causa de abuso sexual das crianças do Piauí, e fizesse uma apresentação com slides, estatísticas, política local, leis em vigor. O horário da sua apresentação é as 11:30 na sala do Carlos. Ah, no power point certo? Me mande antes por correio eletrônico para eu possa dar uma checada. Obrigada.

Antes que eu possa responder ela desliga. Olho para o relógio: são nove e meia da manhã, o que significa que tenho duas horas para criar soluções e métodos de conscientização para o abuso sexual de menores no Piauí, descobrir ONDE fica o Piauí, quem é o Carlos, onde fica a sala dele e aprender a mexer no power point. Sem problemas, sou eficiente, inteligente e preparada. Sei muito o que fazer e como fazer. E antes isso do que ter lembranças eróticas. Mãos à obra.


Cinco dias depois.


Ao mesmo tempo em que tento segurar várias sacolas de supermercado e enfiar a chave certa na fechadura, procuro meu celular dentro da bolsa. Durante um segundo imagino que possa ser o Roberto mas volto à realidade rapidamente repetindo meu mantra ("você não se importa com esse Bastardo de Marca Maior"). Vou aprender a encarar a realidade nem que seja na marra e a realidade é que o Roberto não vai me ligar hoje, nem amanhã nem nunca. Nossa história acabou e é melhor assim. Refleti bastante a respeito de nós dois enquanto escolhia tomates e percebi que o Roberto nunca foi a pessoa certa pra mim apesar de todas as qualidades dele. Afinal, se fôssemos almas gêmeas, ele também teria percebido e nunca teria pedido um tempo. Ou ainda, não teria desligado na minha cara repetidas vezes, me feito chorar e principalmente: teria tido um pouco mais de consideração ao terminar comigo. Consideração para não fazer isso num lugar público, com a boca cheia de comida e teria sido honesto: tempo o caramba, ele queria é terminar. Eu só pensava em todos os momentos bons que passamos e no amor que sinto por ele quando na verdade deveria me concentrar em todas as mancadas que ele já deu comigo.

Na hora em que alcanço o celular um dos sacos plásticos arrebenta e sete laranjas rolam loucamente pelo corredor.
- Alô? - respondo irritada, andando de quatro e juntando as laranjas fujonas.
- Juliana? É o Paulo.
- Paulo! Oi! Paulo! Ãh... Oi! - fico em pé de uma vez e depois lembro que ele não está me vendo com o rosto vermelho, de quatro caçando frutas - como você está?
- Bem. Você?
- Ótima! sabe como é, trabalhando muito. O que você manda de bom? - de onde saiu isso?? Você não está num filme dos anos oitenta Juliana.
- Queria saber se você quer jantar comigo hoje?

Se vivêssemos em um desenho animado, nesse momento apareceria um diabinho de um lado da minha cabeça e um anjinho do outro. Não conversei com o Paulo sobre a Sereia Turbinada nem pretendo, mas eu sei que ela existe. Posso fazer de conta que não e jantar/trepar com ele ou escutar minha consciência e jantar pizza congelada e laranja amassada de sobremesa.
- Obrigada pelo convite, só que hoje realmente não vai dar. Prometi que jantaria com minha amiga. Fica pra próxima está bem?
- Que pena. Me liga pra marcarmos alguma coisa.
- Tá bom. Tchau.

Fecho meu telefone e encaro as laranjas pelo chão do corredor. Fiz a coisa certa. Ele tem uma Sereia Turbinada. Uma coisa foi transar com ele sem saber dela e ainda frágil por causa do final do meu namoro. Outra totalmente diferente é sair para jantar com esse Canalha. Fiz a coisa certa e para provar isso ligo para o Fernando.
- Fernando, o Paulo acabou de me chamar para jantar.
- Muito bom, em qual restaurante vocês vão?
- Nenhum, eu recusei obviamente.
- Porque?
- Como assim porque? Por causa da Sereia Turbinada.
- Ah Juliana. Foda-se ela, como você é careta.
- Eu não sou careta! Pessoas caretas não trepam durante 48 horas seguidas! - nessa hora percebo que um casal de velhinho está saindo de casa e abaixo meu tom de voz. - Ou você já se esqueceu dos detalhes que te contei?
- Não esqueci não. E você é careta sim.
- Tchau Fernando.

Careta! Vou mostrar quem é careta aqui. Respiro fundo cinco vezes seguidas e ligo para o Paulo.
- Oi Paulo, é a Juliana. - novamente minha voz de tigresa. - Minha amiga acabou de desmarcar os planos para o jantar. Que tal comida italiana?

Desligo o telefone, cato as laranjas e as jogo em outra sacola, abro a porta, largo tudo na cozinha e vou até o banheiro. O Fernando tem razão, penso enquanto tiro minha roupa e entro no box. Não sei nada sobre essa Sereia Turbinada e nem quero saber, se o marido/namorado/noivo dela está procurando satisfação em outros lugares o problema é dos dois e não meu.

Minha primeira semana no novo emprego foi bastante parecida com o primeiro dia. Cheguei à triste conclusão que minha chefe é autoritária, antipática e descarrega seus problemas na comida e que a simpática ruiva se chama Graziela. Meus dias foram uma sucessão de xeroxs, correios eletrônicos (a Lurdes não acredita na americanização das palavras), telefonemas, faxs e exercícios respiratórios para não cometer nenhum assassinato. Mal consigo acreditar que hoje é sexta e consegui sobreviver aos meus primeiros cinco dias como assistente da dona Lurdes e para comemorar passei no supermercado, comprei duas latas de leite condensado para fazer brigadeiro e depois aluguei um filme. Mas pelo visto vou comemorar comendo lasanha e trepando até o sol raiar. A Tatiana entra no meu quarto no momento em que escolho um fio-dental transparente.
- Oi amiga! mal te vi essa semana!
- Pois é Tati, foi uma loucura total, nem consigo acreditar que sobrevivi. Foi sem a menor dúvida a semana mais longa da minha vida.
- Quais os planos para comemorar?
- Bom... ãh... Nada de mais, sabe como é. - porque estou com receio de contar para ela que vou sair com o Paulo?
- Você vai sair?
- Sim.
- Com quem?
- ãh... bem...
- Jú, você não vai se encontrar com o Paulo né?
- Vou. - respondo abrindo minhas gavetas para ocupar minhas mãos e não ter que ver a Tatiana. - Marquei de me encontrar com ele daqui uma hora.
- Não acredito Juliana!! Mas ele tem uma namorada, isso é muita sacanagem. - Tatiana responde quase gritando.
- Sacanagem é o que ele está fazendo, eu sou solteira Tati. Não vou ficar me torturando por causa disso, não sou careta. Sou uma adulta.
- Certo. - retruca Tatiana saindo do quarto, mas a cara dela diz que o que estou fazendo é tudo menos certo.

O restaurante que sugeri fica na asa norte, é muito charmoso e perfeito para casais: mesas para dois, luz de velas e uma carta de vinho divina. Estou vestida para matar, com lingerie nova (tinha comprado para estrear com o Bastardo de Marca Maior), calça jeans a vácuo, blusa vinho decotadíssima e sandálias de tirinhas. Dou uma geral nas mesas à procura do Paulo e o vejo, sentado tomando um vinho, incrivelmente sexy. Ando até a mesa, trocamos dois beijos no rosto e me sento.
- Você está maravilhosa.
- Obrigada. - Adoro homens que me elogiam, ainda mais quando passei meia hora arrumando meu cabelo, me maquiando e escolhendo minha roupa.
- Pedi esse caubernet savignon, espero que goste.

O garçom se aproxima da nossa mesa e fazemos nossos pedidos. Antes de sair de casa fiquei preocupada com uma eventual Falta de Assunto e dei uma rápida folheada em jornais, revistas só para garantir que não passaríamos o jantar inteiro apenas mastigando, mas me preocupei à toa. Ele é inteligente, engraçado e a conversa flui sozinha, sobre todos os assuntos possíveis. Nossos pratos chegam, pedimos mais uma garrafa de vinho, conversamos, rimos, comemos e me sinto feliz e com muito, mas muito tesão. O Paulo alcança minha mão e a acaricia enquanto eu passo meu pé na perna dele por debaixo da mesa. Estamos nos comendo com os olhos quando o celular dele toca.
- Desculpe, esqueci de desligar. - ele olha para o visor do aparelho, fecha a cara e diz se levantando - Tenho que atender essa ligação, só um minuto.

Lembro do Roberto nessa hora e da eterna mania dele de falar ao celular a toda e qualquer hora do dia e fico aliviada, pela primeira, de não estarmos juntos. O Paulo volta, se senta, pega sua taça de vinho e engole todo o conteúdo de uma vez.
- Algum problema?
- Não, claro que não.

Odeio quando as pessoas fazem isso; dizem que está tudo bem quando está estampado no rosto delas que não está. Na mesma hora percebo que provavelmente aconteceu: a Sereia Turbinada ligou querendo saber de seu paradeiro. Percebo que é a melhor hora para trazer o assunto à tona.
- Quem era Paulo?
- Minha irmã.
- Sua irmã? - faço questão de levantar uma cética sobrancelha ao responder. - Tem certeza?
- Claro que sim.
- Paulo. Eu sei que você tem outra pessoa.
- Como assim?
- Uma namorada.
- Que absurdo.
- Não nega, ela é loira, tem seios imensos, uma boca carnuda e parece que saiu de anúncio de pasta de dentes.
- Como você sabe?
- Não interessa, a questão é que eu não me importo. Eu achava que sim, mas estou chegando à conclusão que não. O que você faz é problema dela e não meu. Então que tal você tomar mais um pouco de vinho e me contar quais as posições sexuais você tem em mente para me comer?

O Paulo me olha atônito, sem saber de onde veio tudo isso e para falar a verdade nem eu sei. Realmente acredito no que falei, ele não é problema meu, ela não é problema meu, só quero sexo e ninguém melhor para isso do que um homem comprometido. Nada de preocupações, brigas, crises de ego masculino, quem vai ter que agüentar tudo isso é ela e não eu. Vou ficar com todas as partes boas de qualquer relacionamento (jantares, sexo, motel), nenhuma parte ruim e não vou correr o risco de me magoar. Seguindo essa linha de raciocínio continuo olhando para o Paulo como se estivesse imaginando ele sem roupa, arrancando as minhas e sorrio. Ele sorri de volta, segura minha mão novamente e serve mais vinho para nós dois.
- Trato feito.

Vinte minutos depois saímos do restaurante e nos dirigimos para um motel, aos amassos e gemidos no carro. Saímos do carro, nos atracando, tirando nossas roupas rapidamente, com urgência e chegamos no quarto completamente nus. Deito na cama e abro minhas pernas devagar, passo minhas mãos nas minhas coxas, na minha barriga, nos meus seios e abafo um gemido. Continuo me acariciando e gemendo, o Paulo senta na beira da cama e afasta minhas pernas ainda mais e fica me observando.
- Não pára gatinha, você está me deixando louco.
Mexo minha cabeça e o encaro sem pudor, cheia de desejo, abaixo minha mão direita lentamente, para que ele possa vê-la nos meus seios, na minha barriga, nas minhas coxas. Me acaricio delicadamente, passando a ponta das unhas por cima da pele, aproveitando cada arrepio de prazer, sabendo que estou ficando cada vez mais molhada, querendo que ele passe a língua no meu corpo inteiro, querendo o pau dele dentro de mim. Encosto um dedo no meu clitóris, minha respiração fica mais profunda, mais rápida e imagino que ao invés de meu dedo é a língua do Paulo me lambendo, me chupando, me levando à loucura. Estou de olhos fechados mas sei que ele não tira os olhos de mim, ouço cada suspiro dele e isso me deixa ainda mais excitada. Aumento a pressão, gemo um pouco mais alto, peço para ele chupar meus seios e no mesmo momento abro os olhos e vejo-o se deitando por cima de mim, colocando meus braços na altura dos meus cabelos e segurando-os firmemente com uma mão. Ele passa a língua nos bicos dos meus seios que estão duros e sensíveis, enfia dois dedos dentro de mim sem pressa e faz um delicioso movimento circular. Deixo escapar vários gritos e cada vez ele me pede para gritar mais alto, muito mais alto, para descrever o que estou sentindo e para respirar fundo e esperar cada vez que digo que estou a ponto de ter um orgasmo. Durante trinta longos e deliciosos minutos ficamos nesse jogo e quando não me sinto mais capaz de me segurar, o Paulo solta minhas mãos, tira seus dedos de dentro de mim, lambe minha barriga e meus seios longamente e de repente me chupa, cobrindo meu clitóris inteiro com a língua, segurando meu quadril para que eu não saia do lugar, para que eu me mexa o mínimo possível, para que eu não consiga me controlar de jeito nenhum. Grito, aperto meus seios, os lençóis, quero que ele continue, quero sentir o pau dele entrando dentro de mim. Nesse momento ele pára e ainda segurando meu quadril me diz para gozar quantas vezes quiser e recomeça a me chupar. Tenho um orgasmo poderoso, minhas pernas tremem, minhas costas se arcam, minhas mãos se fecham com força em volta dos meus seios e grito.
Levanto e peço para ele se sentar na beira da cama. Me ajoelho, lambo o pau dele e o seguro com minhas duas mãos, enfio ele inteiro na minha boca, faço pressão na cabeça com minha língua.
- Que maravilha, não pára. Estou te imaginando de quatro, mostrando essa bunda gostosa só para mim. Continua, continua.
Durante vinte minutos o Paulo fala tudo que pretende fazer comigo entre suspiros e gemidos e ele finalmente me puxa para cima dele, me penetra e tem um longo orgasmo. Permanecemos naquela posição durante um tempo e ele sugere um banho na banheira. Ele se levanta, liga a banheira, estende um robe para mim e se dirige ao frigobar.
- O que você prefere? Champanhe ou vinho?
- Champanhe. – respondo vestindo o robe.
Ele abre a garrafa e se estende ao meu lado, levantando a taça dele.
- Um brinde a uma noite que promete bastante.
- Um brinde a um senhor orgasmo. – falo, rindo e passando minha mão nos braços dele. – Tomara que ainda tenha muitos hoje.
- A banheira já está cheia, vamos entrar.
- Certo. – Tiro meu robe e não me sinto nem um pouco envergonhada de estar nua, muito pelo contrário.
- Vem cá, como você sabia da Laura? – Paulo pergunta me ajudando a entrar na banheira.
- Ãh... de quem?
- Da Laura, minha noiva.
- Ah. Sim. Então vocês são noivos? – de repente sinto um frio dentro da barriga apesar da água estar quentíssima e o jato de hidromassagem nas minhas costas está me incomodando. – Assumi que era sua namorada.
- Responde a pergunta.
- Bom. Ãh... – Como anunciar que não só não lembrava como ele se chamava no dia seguinte da nossa transa como ainda por cima mexi na carteira dele? – Eu... ãh... Deduzi. Isso. É. Intuição feminina.
- Você intuiu que ela tem olhos azuis e silicone?
- Ãh... É, certas mulheres tem uma intuição quase sobrenatural, existem várias pesquisas sobre o assunto, levadas muito a sério do ponto de vista científico. – Pronto, estou enrolando.
- Juliana. Como você sabia?
- Eu não tinha certeza se seu nome era Paulo ou Pedro – não preciso falar que estava em dúvida entre Pedro, Henrique e José não é? – e enquanto você tomava banho procurei algum documento na sua carteira e uma foto de vocês dois caiu. – Fico esperando por uma cara feia e uma bronca, mas o Paulo ri. – Qual é a graça??
- Você não lembrava do meu nome?
- Eu estava bastante bêbada quando nos conhecemos. – pela primeira vez da noite sinto vergonha. Como transo com um homem e esqueço o nome dele? – Sem falar que Paulo não é um nome muito comum...
O Paulo continua rindo e resolvo mudar o rumo da conversa segurando o pau dele que já está duro. Transamos na banheira, depois no chuveiro e finalmente na cama. As seis da manhã saímos do motel e ele me deixa em casa. Ignoro o olhar indagador do porteiro, nem penso que vou ter de buscar meu carro no restaurante assim que acordar, entro no apartamento com um sorriso bobo no rosto e despenco de sono e cansaço na cama.

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[22 Sep 2005|11:21am]
O novo bar fica no lago sul e se chama “Cat’s Lounge” e é o típico barzinho-descolado-para-jovens-moderninhos: decoração clean e cara, drinques mais caros ainda, homens com bronzeados artificiais e braços sarados, meninas com cabelos oxigenados e calças coladas a vácuo na pele. De repente me sinto extremamente cansada: quero ir pra casa, vestir meu pijama, comer pipoca e assistir televisão. Não seja fraca, tome uma caipirinha e olhe descaradamente para todos os homens que estão nesse lugar – grita minha Voz Interior. Nossas bebidas chegam, dou meu primeiro gole, relaxo na mesma hora em que sinto o gosto de saquê misturado com morango. À medida que vamos bebendo e conversando me sinto muito melhor e chego à conclusão que o Roberto na verdade é um Bastardo de Marca Maior que teve sorte de me ter na vida dele e quem deveria estar afogando as mágoas num copo de bebida é ELE e não eu.
- Cretino. ELE quer um tempo? Não, EU quero um tempo. Um tempo imenso e gigante.
- CRETINO!
- Vou ao banheiro. – anuncio solenemente. Ignoro a tontura, minhas pernas tremendo e tento andar com alguma dignidade.

No caminho reparo em um homem moreno encostado na parede conversando com mais dois amigos, segurando uma garrafa de cerveja. Os olhos castanhos dele fitam os meus diretamente e sorrio.
“Se não tem tu vai tu mesmo” como já dizia minha queria avó. Aproximo-me, uma tigresa pronta para abocanhar sua presa (ou pelo menos espero) e o cumprimento com a maior naturalidade, passando a impressão de que nada mais comum para mim do que abordar estranhos em bares descoladinhos.
- Oi.
- Oi. – crê em deus pai, que sorriso é esse?
- Você ia só ficar me olhando de longe ou fazer alguma coisa? – de onde veio essa voz rouca? Berra minha Voz Interior.
- Eu ia fazer mas você fez antes.
Ele é ainda mais lindo de perto: pele morena, olhos castanhos escuros, sorriso maravilhoso, cheiroso e muito bem vestido. Trocamos as frases de praxe (“oh, Juliana, que nome lindo!”, “engenheiro? Que interessante”) para fazer de conta que apenas queremos nos conhecer e não dar uns amassos. Ele se aproxima cada vez mais do meu rosto, sinto as mãos dele apertando minha cintura com um pouco de força e fecho os olhos sentindo a língua dele encostando na minha, minha cabeça leve por causa da vodca e do saquê, felicidade por estar beijando alguém, tristeza por não ser Roberto, desejo, mil coisas ao mesmo tempo. Tímida porém firme, minha Voz Interior tenta se manifestar não transe com ele, só dá uns beijinhos... Ah, cala a boca, você que se dane. Não foi você que me aconselhou a namorar o Roberto? Pois veja no que deu, aquela foi a última vez que sigo algum conselho seu.
- Você não quer continuar isso no meu apartamento gatinha? – me controlo para não responder rápido demais, para que ele pense que estou pesando os prós e contras quando na verdade conto quantas camisinhas coloquei na bolsa antes de sair.
- Ah Paulo... Não sei se é uma boa idéia. – respondo lançando um olhar que contradiz totalmente o que acabei de falar.
- Vamos, estou louco pra tirar essa sua blusa. – ele sussurra quase engolindo minha orelha.
Andamos até o estacionamento conversando sobre a importância de bons engenheiros mecânicos no mundo, o que é ainda mais constrangedor do que se estivéssemos combinando as posições sexuais da noite. Assim que entramos no carro começo a beijar o pescoço dele ao mesmo tempo em que abro o zíper da calça e começo a chupá-lo dentro do carro. Já dizia minha avó: “se for fazer algo, faça direito”. Acho que não era exatamente isso que ela tinha em mente quando te deu esse conselho, mas quem sou eu para dizer? Exatamente, quem é você? Meu alter-ego que a essa hora estaria de pijamas engordando e lamentando ter perdido um homem que não vale muita coisa.

O apartamento do Paulo fica por perto e em quinze minutos chegamos. Após um amasso de meia hora dentro do elevador saímos descabelados, despenteados, seminus e ofegantes. Como ele é gostoso, mal consigo acreditar. Fico morrendo de vontade de pegar meu celular, ligar para a Tatiana só para descrever o corpo dele nos mínimos detalhes e quem sabe nossa transa, numa transmissão ao vivo. Ele me arrasta até o quarto, me joga na cama e percebo que já perdi minha blusa, estou de sutiã, saia, sandálias. Ele desabotoa minha saia devagar, depois meu sutiã e minha calcinha. Levanto-me e subo emcima dele, beijo cada centímetro do corpo dele, sentindo o cheiro maravilhoso da nuca dele, ouço a respiração dele ficando tão ofegante quanto a minha, desço até a barriga, o umbigo, a virilha e recomeço a chupá-lo. Ele geme, respira fundo e fala obscenidades que normalmente me deixariam constrangida mas estou tão bêbada e com tanta raiva do Roberto que ele poderia sugerir uma transa com mais uma mulher e três grilos que eu concordaria. Sinto dois braços me puxando para cima e me virando, de repente estamos fazendo um sessenta e nove maravilhoso. Minhas pernas começam a tremer e sei que meu primeiro orgasmo está a caminho. Tento me controlar, me segurar mas não dá, ele está fazendo uma pressão deliciosa com a língua entre minhas pernas, passando as mãos nos meus seios, aperto a bunda deliciosa dele e grito. Na mesma hora ele se levanta, praticamente me joga emcima dele e me penetra. Subo e desço, rebolo, paro um pouco, nos beijamos, recomeçamos, gemendo cada vez mais alto, nos apertando com cada vez mais força, suando mais, e não agüento. Aviso que vou gritar, que vou gozar e ele grita comigo.

Cacilda, como sexo é bom.



Ouço ao longe o barulho do mar, gaivotas e sinto a brisa marítima passando pelo meu corpo. Abro meus olhos e vejo o mar pela imensa janela que fica em frente à cama king size forrada por lençóis de linho egípcio. A porta se abre e o Roberto entra, só de calção, cabelos molhados, segurando um arranjo de jasmins.
- Já acordou meu amor?
- Ãh... Onde estou?
- Na polinésia francesa, você sempre me disse que era seu sonho vir para cá.
- É. É mesmo. O que você quer? – posso não saber como vim parar aqui, não saber porque estou sem roupas, mas não vou perder a compostura. Afinal, ontem mesmo cheguei à conclusão de que ele é um Bastardo de Marca Maior.
- Queria te pedir perdão. Eu te amo, não existe mulher como você. Quando te pedi um tempo foi porque meu ego masculino se sentiu ameaçado por uma mulher tão brilhante e talentosa como você. Sem contar maravilhosa na cama.
- Não sei não Roberto. Você me parecia bastante convencido de que a sua vida seria bem melhor estando sozinho.
- Eu estava com medo do amor. – ele passa a mão no meu rosto. Percebo que as feições dele se parecem incrivelmente com as do Brad Pitt.
- E o que me garante que agora você não está mais?
- Te dou minha palavra. Minha palavra e esse anel de diamantes.
- Sendo assim...
Nos beijamos e sinto um cheiro maravilhoso de bolo de chocolate. Minha vida está completa. O homem que amo, um anel de diamantes e bolo de chocolate.

Quando abro meus olhos não tem nenhuma janela enorme com vista para o oceano e sim uma janela tampada por várias cortinas escondendo o sol. A cama é grande porém não é uma king size e esses lençóis com certeza não são do melhor linho egípcio do mercado. Passo meu dedo mindinho no anular direito e não sinto nenhuma maciça pedra de diamantes. Tenho que encarar a triste realidade: estou na cama de uma pessoa que mal conheço, de ressaca, sem carro, doida para ir embora e com fome. Olho para os lados procurando minhas roupas e percebo que o Pedro, Henrique, José (qual era mesmo o nome dele mesmo?) não está lá. Diabos. Onde ele se enfiou?
Pouco importa, saio da cama e começo a raciocinar: não posso ir embora sem roupas. Encontro minha calcinha de um lado do quarto e o sutiã do outro. Minha saia está debaixo da cama junto com o pé esquerdo da minha sandália. O pé direito da minha sandália e minha blusa foram procurar uma vida melhor mundo afora, pois não parecem estar em lugar nenhum desse cômodo. Estou de quatro, bufando, descabelada, com rímel borrado debaixo dos olhos, enfiando meu braço debaixo da cama quando a porta se abre e o Pedro/Henrique/José está de pé, usando apenas uma cueca preta e deliciosamente apertada segurando dois pratos. Me levanto depressa, sorrio e pergunto:
- Você sabe onde minha sandália e blusa foram parar?
- Na sala. Quer comer?
- Não, não, obrigada. – depois de gritar de prazer na frente dele, de repente me torno uma lady britânica. – Como alguma coisa na minha casa. Só preciso chamar um táxi.
- Senta aí. E porque você já está vestida? – ele me pergunta olhando para meu sutiã de forma tão fixa que não sei como ele não se abriu por telepatia.
- Ah... Claro.
- Espero que você não esteja de regime, porque trouxe um bolo de chocolate que é uma delícia. – Ah, pelo menos o bolo não foi um sonho.
- Não, não estou.

Me sento na cama e fico mais calma. Ele não é um Bastardo de Marca Maior como o Roberto. Ele está preocupado com a minha alimentação e obviamente não acha que sou uma baleia que precisa assistir a algumas sessões dos “vigilantes do peso”, ao contrário do Roberto.
O café da manhã até que foi agradável; o bolo estava uma delícia e a conversa foi boa mas não lembrava do nome dele de jeito nenhum e não criei coragem de perguntar. “Obrigada pelo delicioso bolo e excelente sexo, falando nisso qual o seu nome mesmo?”. Não pegaria muito bem. Por isso esperei ele tomar banho para vasculhar o quarto à procura de um documento de identidade. Olho um pouco perdida para todos os lados e vejo a calça jeans que ele estava usando ontem à noite pendurada em uma poltrona: a carteira! Surrupio carteira de motorista: PAULO. Eu sabia!! Se não fosse nem Pedro, nem Henrique, nem José, Paulo seria meu próximo chute. Paulo Magalhães. Bonito nome. Um papel cai e meu coração pára de bater quando percebo o que é: uma fotografia de um casal apaixonado: o Paulo e uma mulher com um par de seios recheados de silicone. Sento na poltrona em estado de choque. Transei loucamente e partilhei um bolo de chocolate com um homem comprometido. Viu, te avisei para não ir para cama com um homem que mal conhece e bêbada ainda por cima. Mas não, você teve que fazer as coisas do SEU jeito. Bem feito, assim você aprende talvez.

Canalha. Nesse momento a Sereia Turbinada deve estar em um orfanato no interior do Sergipe brincando com criancinhas, pensando que seu amado está apenas trabalhando e contando os dias para ela voltar enquanto na verdade ele fode como um coelho com uma menina seis anos mais nova que ele, encontrada em um bar-descoladinho-para-jovens-moderninhos. Apóio a cabeça nas minhas mãos, solto um grunhido e fecho os olhos. Calma, muita calma. Nada é tão ruim quanto parece. Dou um pulo ao ouvir a porta do banheiro se abrindo, enfio a carteira de volta no bolso da calça e sento na cama olhando fixamente para a televisão, como se a economia tailandesa nunca tivesse me interessado tanto. Ignoro o corpo definido e molhado, a altura provocante da toalha nos quadris dele e me concentro nas indústrias tecnológicas tailandesas. Chego a uma conclusão racional e simples: não conheço a Sereia Turbinada e isso aqui não é a novela das oito portanto não vou descobrir que ela é minha prima de segundo grau de quem fui muito amiga na infância mas de quem me distanciei com o passar dos anos.
- Você tá legal Juliana? – Paulo indaga, sorrindo e passando a mão na minha perna.
Você não se envolver com um homem comprometido vai? Imagina se fosse com você. Imagina se fosse com alguma amiga sua! Você ia odiar se uma mulher se envolvesse com o marido/namorado/noivo de uma conhecida sua. Pegue sua sandália, sua blusa, chame um táxi e vá para casa, coloque seu pijama, coma pipoca e chore a perda do Roberto.
Estou a ponto de seguir o conselho da minha Voz Interior quando cometo o erro de tirar os olhos das indústrias tailandesas e olhar para o Paulo. Ele está olhando para o meu sutiã do mesmo jeito que hoje de manhã e o corpo ainda está levemente molhado do banho. Esse homem é lindo. Sem falar nada tiro a toalha dos quadris dele e recomeça tudo de novo. Não quero saber de nada, da Sereia Turbinada, do fora do Roberto, da ressaca, de nada.
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Capítulo 1 [19 Sep 2005|06:35pm]
Vejo pelos bastidores Koffi Anan fazendo seu discurso de introdução e olho à minha volta: homens engravatados com fones no ouvido, mulheres de meia-idade vestindo terninhos pretos, assistentes mal-humorados correndo para todos os lados e fecho meus olhos. Daqui alguns minutos subirei no palanque e aceitarei graciosamente o cargo de representante geral da ONU. Isso com apenas 25 anos! Ouço meu nome e aplausos, respiro fundo, sorrio e olho para Koffi. Ele está estendendo a mão, me chamando para o lado dele. Os flashs dos jornalistas me cegam, os aplausos se intensificam quando aperto a mão de Koffi. Posiciono-me em frente ao microfone e começo meu discurso. Não mais a ONU aceitará imposições dos Estados Unidos, não mais os países do terceiro mundo serão ignorados e a partir de hoje todos têm os mesmos direitos e obrigações. Uma repórter avança e grita meu nome:
- Juliana! Juliana!
- Sim?
- ACORDA!

Abro os olhos e percebo que não estou na sede da ONU em Nova Iorque e sim no meu quarto em Brasília sendo chacoalhada pela Tatiana, uma amiga com quem divido o apartamento. Depois de algum esforço abro os olhos, dou um suspiro de frustração e pergunto mal-humorada:
- O que foi?
- O Roberto quer falar com você. – diz Tatiana me estendendo o telefone sem fio.
- Obrigada – respondo alcançando o telefone. – Oi meu amor!
- Não te pedi pra deixar o celular ligado à noite? Tentei te ligar umas cinco vezes desde que acordei.
- Desculpa amor. – respondo disfarçando uma pitada de irritação. Odeio deixar meu celular ligado porque sempre tem um bêbado que me liga às três da manhã. –Então, o que você me conta de novo?
- Queria saber se você quer almoçar comigo hoje.
- Claro! Aonde?
- No japonês.
- Certo. Te encontro daqui uma hora
Enquanto tiro minha roupa e entro no chuveiro relembro os diferentes estágios do meu namoro com o Roberto. Ele foi o primeiro homem com quem me senti à vontade o suficiente para contar meus problemas e com o qual não vi necessidade de fazer joguinhos. Nunca me preocupei se deveria ou não ligar, em fazê-lo sentir ciúmes, se ele me ama ou não. Admito que ultimamente tenho me perguntado por vezes se ele me ama e porque está comigo mas todos sabem que esse tipo de insegurança é perfeitamente normal em um relacionamento longo. Conheci o Roberto na universidade, fizemos uma aula de direito internacional juntos e nos gostamos de primeira. Nós dois tínhamos saído de namoros conturbados e o começo foi complicado. Depois de alguns tropeços as coisas se estabilizaram e apesar de algumas brigas completamos um ano e meio de namoro e estou muito feliz. Totalmente feliz. Cem por cento feliz. O fato que só transamos duas vezes por semana nem me incomoda, muito menos que só o vejo no final-de-semana, afinal somos duas pessoas ocupadíssimas. Sem falar que sou uma mulher madura e segura, não me agarro a definições adolescentes de amor. “O que importante é qualidade e não quantidade” penso ao mesmo tempo em que tiro espuma do meu ouvido. Ele me ama e eu o amo, o resto é detalhe.

Desde que começamos a namorar sempre almoçamos nesse restaurante que serve o melhor sushi da cidade. A decoração é linda, uma mistura de cidade proibida da China com a Casa Cor, os garçons são simpáticos e o salmão sempre fresquinho. Dou uma última ajeitada no cabelo e empurro a porta de vidro procurando pelo Roberto. Ele está sentado na mesa de sempre, na varanda, falando ao celular, passando a mão no pescoço e sinto uma vontade quase incontrolável de sentar no colo dele e sentir aquelas mãos maravilhosas passando pelo meu corpo ao mesmo tempo em que como um sashimi de atum. Entretanto o que realmente faço é lhe dar um beijo no canto da boca, me sentar do outro lado da mesa e esperar o final da ligação. Certa vez, li um artigo que descrevia os novos vícios criados pela tecnologia e falar freneticamente no celular era um deles. Até pensei em mostrar o artigo para o Roberto mas desisti da idéia, afinal o primeiro passo para se recuperar de um vício é que a pessoa admita sozinha que tem um problema. Se fosse qualquer outro cara, eu já estaria conversando com alguém no celular só para provar que eu também tenho assuntos urgentes que não podem esperar, mas como é o Roberto apenas olhos para os lados e espero pacientemente ele acabar. Ele fecha o celular, sorri rapidamente e chama o garçom.
- Te chamei aqui porque queria conversar.
- Ah é? Sobre o que?
- Ultimamente as coisas têm estado um pouco estranhas entre a gente não acha?
- Bom... ãh... Quer dizer... – gaguejo, pensando com cuidado na minha resposta. O Roberto abomina qualquer tipo de DSR (Discussão Sobre Relacionamento) e toda vez que tento acabamos brigando. – Tenho te achado um pouco distante, mas sei como você anda ocupado e estressado. – completo rapidamente senão começaríamos a brigar.
- Estou de saco cheio de muita coisa.
- Ah... Sim... Claro. Ãh... – olho desesperadamente para os lados à procura de qualquer coisa para mudar de assunto. Estou sentindo as pesadas nuvens cinzas do “climão” se aproximando. – Você assistiu Jô Soares ontem?
- Não, estava muito cansado e dormi.
- Claro... Ãh... Tinha um convidado muito interessante, um comissário de bordo que falava 45 línguas diferentes e mesmo assim fazia erros estrondosos de português.
- Legal.
- É... – respondo ainda pensando freneticamente em algum assunto ao ver as nuvens do climão já pairando emcima de nossas cabeças.
- Juliana, eu preciso de um tempo.
- Claro! Porque não viajamos, podemos ir para qualquer lugar que você quiser! Vai ser ótimo, você vai poder relaxar, esfriar a cabeça. Que tal um lugar na praia, com coqueiros e água quentinha? – respondo empolgadíssima, já nos imaginando fazendo amor no oceano, andando de mãos dadas na praia, ouvindo o barulho das ondas quando percebo que pela testa franzida dele não estamos dividindo as mesmas fantasias.
- Não, quero um tempo de nós dois.
- Ah... Tá.
- As coisas entre nós dois não são mais o que costumavam ser e eu preciso pensar em tudo que está acontecendo. Quero ficar sozinho.
- Claro... Mas... Porque?
Na mesma hora em que pergunto me odeio por isso. Sou independente, tenho milhões de amigos e não preciso de um homem, ainda mais um que não quer estar comigo. Ele acabou de me explicar porque quer ficar sozinho e mesmo que eu possa ler nas entrelinhas “na verdade quero transar com outras pessoas” fico triste. Amo o Roberto e não quero dormir sozinha, acordar sozinha e não ligar pra ele para contar o que aconteceu durante o meu dia. Não que eu costume fazer isso porque ele não gosta muito de falar ao telefone e está sempre fazendo mais de duas coisas quando ligo, mas mesmo assim.
Tento me controlar para não me transformar em uma chorona histérica e me odeio por ter me arrumado toda, enfrentado o trânsito do século para levar um fora. Estou até sentindo as palavras “rejeitada” sendo tatuadas na minha testa. Levanto-me nervosa, me controlando para não chorar, não gritar, não pedir para ficarmos juntos, não pensar que há dois dias estava planejando uma surpresa para o dia dos namorados, não falar que o amo.
- Bom... Então é isso. Estamos conversados não é? Vou indo. – respondo com uma voz estrangulada que não reconheço como a minha. – A gente... ãh... se vê.
- Oras, você não vai terminar de comer? – ele me pergunta, com um olhar confuso, como se ele tivesse acabado de me pedir o sal e não me dar um imenso pé na bunda.
- Não, perdi a fome por algum motivo. – de repente fico com raiva. Qual o problema dos homens?? Não basta me dar um fora ele ainda precisa ser tão frio comigo? – Nunca tive paciência para fazer de conta que está tudo bem quando não está. Você terminou comigo, e quer ficar sozinho, nada mais lógico que você termine esse almoço sozinho. – HA! “Toma isso” penso feliz.
- Ah Juliana, não seja tão exagerada. Só pedi um tempo, nunca se sabe o que pode acontecer. – Depois de uma pausa ele acrescenta, mastigando um tempurá: – eu ainda te amo, mas preciso ficar sozinho, me afastar de você.
- Pois é, estou me afastando. Passar bem.
Entro no meu carro, ligo o som e ao sentir a primeira lágrima pego meu celular e ligo para a Tatiana e desligo em seguida. Não posso falar com ela sobre isso, não posso admitir que O Relacionamento Ideal como ela diz acabou e que de ideal não tinha muita coisa nos últimos meses. Preciso conversar com alguém que não me julgue, que não considere o final de um namoro tão sério assim. Preciso de alguém que não ache escandaloso querer tomar um porre às três da tarde. Preciso do Fernando. Sem nem mesmo ligar me dirijo até a sua casa.
Antes de sair do carro dou uma checada no meu rosto no retrovisor para ver a minha cara. Deplorável: marcas pretas de rímel descem até meu queixo, olhos vermelhos e inchados. Tento dar um jeito esfregando minha mão no rosto, retoco o batom e o rímel. Está certo que sou amiga do Fernando desde dos meus seis anos, mas não tem motivo para ele me ver em qualquer estado abaixo de Bonita. Espero dez minutos para a cor das minhas bochechas se normalizar um pouco e respiro fundo. Quando minhas feições estão mais humanas subo até o apartamento do Fernando.
- Então, o que aconteceu? - Fernando me pergunta ao abrir a porta.
- Ele. Me. Pediu. Um. Tempo. – respondo entre os dentes, tremendo de raiva e humilhação. – Em. Um. Restaurante. Com. A. Boca. Cheia. De. Peixe. Cru.
- Ele quem? O Roberto?
- Claro que o Roberto, quem mais?
- Acho que tenho vodca na geladeira. – ele responde, como se a única solução para os problemas de qualquer um seja uma garrafa de smirnoff. Ele me serve um copo com uma quantidade extremamente desigual de tônica e vodca, senta no sofá e me fala – Juliana, não esquenta. Daqui dois dias ele se arrepende e pede pra voltar.
- E daí? Não quero que ele me peça pra voltar! – grito indignada. Claro que quero que ele me peça pra voltar, de preferência de joelhos, com os braços carregados de flores e diamantes.
- Não, claro que você não quer.
Durante uma hora disseco a Fatídica Conversa do restaurante, choro e bebo. Pergunto a opinião do Fernando em várias questões mas não deixo ele responder. No momento não estou muito interessada no que um homem tem para me dizer.
- E o que você me conta de novo? – entorno meu copo de vodca e o entrego para o Fernando. – Deu alguma coisa entre você e aquela tal de Bruna?
- Ela descobriu que da última vez que transamos tinha acabado de passar a noite com a Sara e ficou com raiva, vai entender o motivo. – Sara é a eterna ex do Fernando, a única mulher por quem ele já sentiu algo além de tesão. – Foda-se, estava enjoando dela de qualquer jeito.
Passo o resto da tarde despejando vodca na minha corrente sangüínea e ouvindo ele me dar a relação das mulheres que passaram pela sua cama. Pela cama, elevador do prédio, banco do carro, banheiro de boate, supermercado, piscina infantil do clube... Nunca sei se sinto nojo ou inveja do Fernando. Às sete da noite volto para casa e estou bêbada o suficiente para tirar as fotos do Roberto da minha parede ao som da Mariah Carey sem chorar (pelo menos sem chorar demais). Justo no momento em que estou cantando “hero” aos berros, a Tatiana entra no quarto
- O que aconteceu Jú??
- Ele me pediu um tempo. Em outras palavras quer transar com todas as mulheres da cidade e me acha feia. – respondo com uma voz pastosa e sentindo mais lágrimas a caminho.
- Você bebeu?
- Sim, mas não o suficiente.
- Certo. – ela responde e fica me olhando sem falar uma palavra. Levanta bruscamente e diz – o jeito é sair e beber mais então. Abriu um bar novo na asa sul e aparentemente eles servem as melhores caipissaquês de morango da cidade.
É isso. Vou sair, vou usar o vestido mais indecente que encontrar no armário, vou me divertir e esquecer que esse canalha existe. Sentindo minha autoconfiança aumentando me dirijo ao meu armário à procura de uma roupa que deixe muito pouco à imaginação.


[continuação do capítulo 1 semana que vem]
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